17 de novembro de 2011

Martin Buber (trecho de "Diálogo", 1930)

"Não existem somente grandes esferas da vida dialógica que na sua aparência não são diálogo, mas existe também o diálogo que não é diálogo enquanto forma de vida, isto é, que tem a aparência de um diálogo, mas não a sua essência. Aliás, parece, às vezes, que esta última espécie é a única que ainda existe. 

Conheço três espécies de diálogo: o autêntico - não importa se falado ou silencioso -, onde cada um dos participantes tem de fato em mente o outro ou os outros na sua presença e no seu modo de ser e a eles se volta com a intenção de estabelecer entre eles e si próprio uma reciprocidade viva [para Buber, "Toda vida verdadeira é encontro"]; o diálogo técnico, que é movido unicamente pela necessidade de um entendimento objetivo; e o monólogo disfarçado de diálogo, onde dois ou mais homens, reunidos num local, falam, cada um consigo mesmo, por caminhos tortuosos estranhamente entrelaçados e creem ter escapado, contudo, ao tormento de ter que contar apenas com os próprios recursos. Como eu disse, a primeira espécie de diálogo tornou-se rara; onde ela surge, por mais "não espiritual" que seja sua forma, traz o testemunho da perpetuação da substância orgânica do espírito humano. A segunda espécie faz parte dos bens essenciais e inalienáveis da "existência moderna", embora o diálogo verdadeiro ainda aqui se esconda em toda espécie de rincões e surja ocasionalmente, de uma forma inconveniente; mais frequentemente tolerado com arrogância do que realmente escandalizando (...). E a terceira...

(...)

A vida dialógica não é uma vida em que se tem muito a ver com os homens, mas é uma vida em que, quando se tem a ver com os homens, faz-se isto de uma forma verdadeira."

(Do livro "Do diálogo e do dialógico", Perspectiva, 2009, p. 53, 54 - tradução do original alemão por Marta Ekstein de Souza Queiroz e Regina Weinberg)

13 de novembro de 2011

Trechos de "Algumas questões de filosofia moral", curso ministrado por Hannah Arendt em 1965, aos 59 anos:

[Sobre o diálogo íntimo como condição para uma vida moral]


"A conduta moral, até onde se sabe, parece depender primeiramente do relacionamento do homem consigo mesmo. Ele não deve se contradizer abrindo uma exceção em seu favor, ele não deve se colocar numa posição em que teria de desprezar a si mesmo. Em termos morais, isso deveria bastar, não só para torná-lo capaz de distinguir o certo do errado, mas também para fazer o certo e evitar o errado. Assim Kant, com a coerência de pensamento que é a marca do grande filósofo, coloca os deveres que o homem tem para consigo à frente dos deveres para com os outros - algo que é certamente muito surpreendente, estando em curiosa contradição com o que geralmente compreendemos por comportamento moral. Não é certamente uma questão de preocupação com o outro, mas de preocupação consigo mesmo, não é uma questão de humildade, mas de dignidade humana e até de orgulho humano. O padrão não é nem o amor por algum próximo, nem o amor por si próprio, mas o respeito por si mesmo. 

(...)

Esse eu [ou este "si mesmo" a quem devemos respeitar] não é nenhuma ilusão; faz-se ouvir falando para mim - falo comigo mesmo, não estou apenas ciente de mim mesmo - e, nesse sentido, embora eu seja um só, sou dois-em-um, e pode haver harmonia ou desarmonia com o eu. Se discordo de outras pessoas, posso me afastar; mas não posso me afastar de mim mesmo, portanto, é melhor que eu primeiro tente estar de acordo comigo mesmo antes de levar todos os outros em consideração. Essa mesma sentença também revela porque é melhor sofrer o mal do que fazer o mal [Arendt comenta esta sentença de Sócrates, no Górgias]: se faço o mal, sou condenado a viver junto com um malfeitor numa intimidade insuportável: nunca posso me ver livre dele. Por isso, o crime que permanece oculto aos olhos dos deuses e dos homens, um crime que não aparece porque não há ninguém a quem possa aparecer, e que os senhores encontrarão em Platão mais de uma vez, realmente não existe: assim como sou meu parceiro quando estou pensando, sou minha própria testemunha quando estou agindo. Conheço o agente e estou condenado a viver junto com ele. E ele não é calado.

(...)

... eu mesmo chego a essa conclusão em vista desse viver comigo mesma que se torna manifesto no discurso entre mim e mim mesma. Se estou em desavença com meu eu, é como se eu fosse forçada a viver e interagir diariamente com o meu próprio inimigo. Ninguém pode querer tal coisa. Se pratico o mal, vivo junto com um malfeitor, e embora muitos prefiram praticar o mal em proveito próprio em vez de sofrer o mal, ninguém vai preferir viver junto com um ladrão, um assassino ou um mentiroso. É isso o que esquecem aquelas pessoas que elogiam o tirano que chegou ao poder por meio de assassinato e fraude.


No Górgias, existe apenas uma referência curta ao que constitui esse relacionamento entre o Eu (I) e o Si Mesmo (self), entre mim e mim mesma. Assim, volto-me para outro diálogo, o Teeteto, o diálogo sobre o conhecimento, em que Sócrates apresenta uma exposição clara sobre a questão. Ele deseja explicar o que entende por dianoeisthai, pensar uma questão até esclarecê-la, e diz: "Eu chamo a isso um discurso que o espírito trava consigo mesmo sobre qualquer assunto que esteja considerando. E vou lhes explicar o que penso, embora eu próprio não esteja muito certo a esse respeito. Parece-me que isso não passa de dialegesthai, falar de alguma coisa até esclarecê-la, com a ressalva de que o espírito faz as perguntas a si mesmo e as responde, dizendo-se sim ou não. Assim ele chega ao limite em que as coisas devem ser decididas, quando os dois falam igual e já não estão mais incertos, o que, então, estabelecemos como a opinião do espírito. Decidir e formar uma opinião é o que chamo de discurso, e a própria opinião é para mim uma afirmação falada, pronunciada não para outra pessoa e em voz alta, mas silenciosamente para si mesmo". (...) Que um malfeitor não será um parceiro muito bom para esse diálogo silencioso parece um tanto óbvio.


A partir do que sabemos sobre o Sócrates histórico, parece provável que aquele que passou os seus dias na praça do mercado (...) tenha acreditado que os homens não têm uma voz inata da consciência, mas sentem a necessidade de falar sobre as questões para esclarecê-las; que todos os homens falam consigo mesmos. Ou, em termos mais técnicos, que todos os homens são dois-em-um, não apenas no sentido de consciência de si e autoconsciência (de que, faça o que fizer, estou ao mesmo tempo, de algum modo, ciente de fazê-lo), mas no sentido muito específico e ativo desse diálogo silencioso, de terem uma interação constante, de estarem em condições de poder falar consigo mesmos. Se ao menos soubessem o que estavam fazendo, assim Sócrates deve ter pensado, compreenderiam como era importante para eles não fazer nada que pudesse estragar esse diálogo. Se a faculdade da fala distingue o homem das outras espécies animais - e isso é aquilo em que os gregos realmente acreditavam e o que Aristóteles, mais tarde, disse na sua famosa definição -, então é nesse diálogo silencioso de mim mesma comigo mesma que a minha qualidade especificamente humana fica provada. Em outras palavras, Sócrates acreditava que os homens não são meramente animais racionais, mas seres pensantes, e que prefeririam abrir mão de todas as outras ambições e até sofrer danos e insultos a perder essa faculdade.


(...)


Fazer o mal significa estragar essa capacidade [dialógica]; a maneira mais segura para um criminoso nunca ser descoberto e escapar da punição é esquecer o que fez e não pensar mais no assunto. Também por isso, podemos dizer que, antes de mais nada, o arrependimento consiste em não esquecer o que se fez, em "voltar ao assunto", como indica o verbo hebraico shuv. Essa conexão de pensamento e lembrança é especialmente importante em nosso contexto. Ninguém consegue se lembrar do que não pensou de maneira exaustiva ao falar a respeito do assunto consigo mesmo.


(...)


Sem dúvida, posso me recusar a pensar e lembrar, e ainda assim permanecer muito normalmente humana. Entretanto, esse perigo é muito grande não só para mim mesma, pois minha fala, tendo perdido a mais elevada realização da capacidade humana de falar, vai se tornar consequentemente sem sentido, mas também para os outros, que são forçados a viver com uma criatura possivelmente muito inteligente e, mesmo assim, sem nenhuma capacidade de pensar (thoughtless). Se me recuso a lembrar, estou realmente pronta a fazer qualquer coisa (...).


(...)


Essa questão da lembrança nos faz dar pelo menos um passo em direção à questão incômoda da natureza do mal. A filosofia (e também a grande literatura (...)) só conhece o vilão como alguém desesperado, alguém cujo desespero irradia certa nobreza ao seu redor. Não vou negar que esse tipo de malfeitor exista, mas tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se deve àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão, e, sem lembrança, nada consegue detê-los. Para os seres humanos, pensar no passado significa mover-se na direção da profundidade, criando raízes e assim estabilizando-se, para que não sejam varridos pelo que possa ocorrer [grifo meu] - o Zeitgeist, a História ou a simples tentação.O maior mal não é radical, não possui raízes e, por não ter raízes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo.


(...) podemos agora dizer que nesse processo de pensamento em que realizo a diferença especificamente humana da fala eu me constituo de modo explícito como uma pessoa, e vou continuar a ser uma pessoa na medida em que seja capaz dessa constituição repetidas vezes. Se é isso o que comumente chamamos de personalidade, o que não tem nada a ver com talento e inteligência, ela é o simples resultado, quase automático, do pleno exercício da capacidade de pensar (thoughtfulness). Em outras palavras, ao conceder o perdão, o que se perdoa é a pessoa e não o crime; no mal sem raiz, não resta nenhuma pessoa a quem se poderia perdoar.


É nesse sentido que a curiosa insistência de todo pensamento moral e religioso na importância da vinculação a si talvez seja um pouco mais bem compreendida. Não é uma questão de amar a mim mesma,  assim como posso amar aos outros, mas de ser mais dependente desse parceiro silencioso que carrego comigo mesma, estando mais à sua mercê, por assim dizer, do que talvez seja o caso com qualquer outra pessoa. O medo de perder a si mesmo é legítimo, pois é o medo de já não ser capaz de falar consigo mesmo. (...)


(...) Desse ponto de vista, é realmente verdade que a conduta com os outros vai depender da minha conduta comigo mesma. Só que não está envolvido aí nenhum conteúdo específico, nenhum dever ou obrigação especial, nada senão a pura capacidade de pensamento e lembrança, ou a sua perda."



(in "Responsabilidade e Julgamento", Companhia das Letras, 2010, páginas 131,154,155,156,157,158,159,160,161 / Traduzido do original inglês por Rosaura Eichenberg)

31 de julho de 2011

Trecho de "Os Dogmas Inconscientes" (Emil M. Cioran, "Breviário de Decomposição")

"(...) Trazemos conosco, como um tesouro irrecusável, um monte de crenças e de incertezas indignas. Mesmo quem consegue desembaraçar-se delas e vencê-las, permanece - no deserto de sua lucidez - ainda fanático: de si mesmo, de sua própria existência; humilhou todas as suas obsessões, salvo o terreno em que afloram; perdeu todos os pontos fixos, salvo a fixidez da qual provém. A vida tem dogmas mais imutáveis que a teologia, pois cada existência está ancorada em infalibilidades que fazem empalidecer as elucubrações da demência ou da fé. O cético mesmo, apaixonado por suas dúvidas, mostra-se fanático pelo ceticismo. O homem é o ser dogmático por excelência; e seus dogmas são tanto mais profundos quando não os formula, quando os ignora e os segue.

Todos nós cremos em muito mais coisas do que pensamos, abrigamos intolerâncias, cultivamos prevenções sangrentas e, defendendo nossas ideias com meios extremos, percorremos o mundo como fortalezas ambulantes e irrefragáveis. Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvida e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão (...)."

19 de março de 2011

De Baudelaire: "Espanquemos os pobres!"

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública – dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a idéia de uma idéia, algo de infinitamente vago.

E saí com uma grande sede. Porque o gosto apaixonado por más leituras engendra uma necessidade proporcional de grandes ares e de muitas bebidas refrescantes.

Quando ia entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu com um desses inesquecíveis olhares que derrubariam tronos, se é que o espírito removesse a matéria e se o olho de um hipnotizador fizesse as uvas amadurecerem.

Ouvi, ao mesmo tempo, uma voz que me cochichava ao ouvido, uma voz que eu reconheci bem; era a voz de um bom Anjo ou de um bom Demônio, que me acompanha por todos os lugares. Se Sócrates tinha seu bom Demônio, por que eu não havia de ter o meu bom Anjo, e por que não teria eu a honra, como Sócrates, de obter um brevê de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo bem informado Baillarger?

Existe essa diferença entre o Demônio de Sócrates e o meu, pois o de Sócrates só se manifestava a ele para proibir, advertir, impedir, e que o meu dignava-se a aconselhar, sugerir, persuadir; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, um Demônio de combate.

Ora, sua voz cochichava isso: “Quem for igual ao outro que o prove e só é digno da liberdade quem a sabe conquistar.”

Imediatamente saltei sobre meu mendigo. Com um único soco fechei-lhe um olho, que, em um segundo, tornou-se inchado como uma bola. Quebrei uma unha ao partir-lhe dois dentes, e como eu não me sentisse bastante forte, tendo nascido de compleição delicada e tivesse pouca prática de boxe, para desancar aquele velho, peguei-o com uma das mãos pela gola de seu casaco e com a outra lhe agarrei a garganta e me pus a sacudi-lo, vigorosamente, cabeça contra a parede. Devo confessar que já havia previamente inspecionado os arredores com uma olhada e havia verificado que naquele subúrbio deserto eu me achava, por algum tempo, fora do alcance de qualquer policial.

Tendo, em seguida, com um pontapé, dado em suas costas, bastante enérgico para lhe quebrar as omoplatas, botei por terra aquele sexagenário enfraquecido; peguei, então, um grosso galho de árvore, que estava jogado no chão, e bati nele com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.

De repente, ó milagre! ó alegria do filósofo que verifica a excelência de sua teoria – vi esta antiga carcaça se virar, se levantar com uma energia que eu jamais suspeitaria numa máquina de tal modo danificada, e, com um olhar de raiva que me pareceu de bom augúrio, o malandro decrépito jogou-se sobre mim, socou-me dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, bateu-me fortemente. Pela minha enérgica medicação, eu havia lhe restituído o orgulho e a vida.

Então, eu lhe fiz sinais enérgicos para que compreendesse que eu considerava nossa discussão terminada e, levantando-me com a satisfação de um sofista de pórtico, lhe disse: “Meu senhor, o senhor é meu igual! Queira dar-me a honra de aceitar que eu divida minha bolsa consigo, e lembre-se: se você é realmente filantropo, que é preciso aplicar, em todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmolas, a mesma teoria que eu tive o sofrimento de experimentar sobre as suas costas.”

Ele me jurou que havia compreendido a minha teoria e que obedeceria aos meus conselhos.

Do livro "Pequenos poemas em prosa", de Charles Baudelaire (trad. Ivo Barroso)