31 de julho de 2011

Trecho de "Os Dogmas Inconscientes" (Emil M. Cioran, "Breviário de Decomposição")

"(...) Trazemos conosco, como um tesouro irrecusável, um monte de crenças e de incertezas indignas. Mesmo quem consegue desembaraçar-se delas e vencê-las, permanece - no deserto de sua lucidez - ainda fanático: de si mesmo, de sua própria existência; humilhou todas as suas obsessões, salvo o terreno em que afloram; perdeu todos os pontos fixos, salvo a fixidez da qual provém. A vida tem dogmas mais imutáveis que a teologia, pois cada existência está ancorada em infalibilidades que fazem empalidecer as elucubrações da demência ou da fé. O cético mesmo, apaixonado por suas dúvidas, mostra-se fanático pelo ceticismo. O homem é o ser dogmático por excelência; e seus dogmas são tanto mais profundos quando não os formula, quando os ignora e os segue.

Todos nós cremos em muito mais coisas do que pensamos, abrigamos intolerâncias, cultivamos prevenções sangrentas e, defendendo nossas ideias com meios extremos, percorremos o mundo como fortalezas ambulantes e irrefragáveis. Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvida e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão (...)."