17 de novembro de 2011

Martin Buber (trecho de "Diálogo", 1930)

"Não existem somente grandes esferas da vida dialógica que na sua aparência não são diálogo, mas existe também o diálogo que não é diálogo enquanto forma de vida, isto é, que tem a aparência de um diálogo, mas não a sua essência. Aliás, parece, às vezes, que esta última espécie é a única que ainda existe. 

Conheço três espécies de diálogo: o autêntico - não importa se falado ou silencioso -, onde cada um dos participantes tem de fato em mente o outro ou os outros na sua presença e no seu modo de ser e a eles se volta com a intenção de estabelecer entre eles e si próprio uma reciprocidade viva [para Buber, "Toda vida verdadeira é encontro"]; o diálogo técnico, que é movido unicamente pela necessidade de um entendimento objetivo; e o monólogo disfarçado de diálogo, onde dois ou mais homens, reunidos num local, falam, cada um consigo mesmo, por caminhos tortuosos estranhamente entrelaçados e creem ter escapado, contudo, ao tormento de ter que contar apenas com os próprios recursos. Como eu disse, a primeira espécie de diálogo tornou-se rara; onde ela surge, por mais "não espiritual" que seja sua forma, traz o testemunho da perpetuação da substância orgânica do espírito humano. A segunda espécie faz parte dos bens essenciais e inalienáveis da "existência moderna", embora o diálogo verdadeiro ainda aqui se esconda em toda espécie de rincões e surja ocasionalmente, de uma forma inconveniente; mais frequentemente tolerado com arrogância do que realmente escandalizando (...). E a terceira...

(...)

A vida dialógica não é uma vida em que se tem muito a ver com os homens, mas é uma vida em que, quando se tem a ver com os homens, faz-se isto de uma forma verdadeira."

(Do livro "Do diálogo e do dialógico", Perspectiva, 2009, p. 53, 54 - tradução do original alemão por Marta Ekstein de Souza Queiroz e Regina Weinberg)

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