17 de janeiro de 2012

José Ortega y Gasset, trechos de "Estudos sobre o amor":

(...) Se um médico fala sobre a digestão, as pessoas escutam com modéstia e curiosidade. Mas se um psicólogo fala do amor, todos o ouvem com indiferença, ou melhor, não o ouvem, não se dão sequer ao trabalho de saber o que tem a dizer, porque todos se crêem doutores na matéria. Em poucas coisas é tão manifesta a estupidez habitual das pessoas. Como se o amor não fosse, em última análise, um tema teórico da mesma espécie que os demais e, portanto, hermético para quem não o aborde com os instrumentos intelectuais apropriados! (...) Existem, pois, razões de sobra para que as questões que toda a gente tem a presunção de entender - amor e política - sejam aquelas em que houve menor evolução. Só para não terem de ouvir as trivialidades que as pessoas ignorantes se apressam a proferir assim que se aborda alguma delas, preferiram calar-se os que melhor teriam falado. 

(...)

Conhecer as coisas não é sê-las [ou vivê-las]; nem sê-las [ou vivê-las], conhecê-las. Para ver uma coisa é necessário que nos afastemos dela, e a distância converte-a de realidade vivida em objeto de conhecimento.

(...)

A crença de que o amor é operação comum e banal é um dos grandes obstáculos à compreensão dos fenômenos eróticos e resulta de um enorme equívoco. Com a mesma palavra amor designamos os fatos psicológicos mais diversos e, assim, os nossos conceitos e generalizações nunca têm correspondência com a realidade. O que é certo para o amor num sentido da palavra não o é para outro, e a nossa observação, talvez certeira num determinado círculo do erotismo, torna-se falsa quando é extensiva a outros.

A origem do equívoco não é duvidosa. Os atos sociais e privados em que se manifestam as mais diferentes atrações entre homem e mulher formam, nas suas grandes linhas, um repertório limitado. O homem que aprecia o corpo de uma mulher, aquele que, por vaidade, se interessa pela sua pessoa, o que chega a perder a cabeça vítima do efeito mecânico que uma mulher pode produzir com uma tática certeira de atração e desdém, o que simplesmente se liga a uma mulher por ternura, lealdade, simpatia, "afeição", aquele que cai num estado passional, e, finalmente, aquele que ama com verdadeira paixão, comportam-se de forma pouco mais ou menos idêntica. Quem de longe observa os seus atos não se fixa nesse pouco mais ou menos e, atendendo apenas ao padrão manifesto da conduta, julga que esta não é diferente e, portanto, tão-pouco o sentimento que a inspira. Mas bastaria observá-las de perto com uma lupa para verificar que as ações se parecem apenas nas suas grandes linhas, e que há entre elas enormes variações. É um erro muito grande interpretar um amor pelos seus atos e palavras: geralmente, nem uns nem outras refletem o amor, mas constituem um repertório de grandes gestos, rituais e fórmulas criados pela sociedade, que o sentimento tem à sua disposição e se vê obrigado a usar, como se de um equipamento se tratasse. Só o pequeno gesto original, o tom e o sentido mais profundo da conduta nos permitem diferenciar os vários tipos de amores.


(...)


O amor do enamoramento - que é, na minha opinião, o protótipo e expoente máximo de todos os erotismos - caracteriza-se por conter, ao mesmo tempo, estes dois ingredientes: o sentimento de "encanto" por outro ser que provoca em nós uma "ilusão" completa e o sentimento de se estar absorvido por ele até a raiz da nossa pessoa, como se nos houvesse arrancado do nosso próprio fundo vital e tivéssemos transplantado nele as nossas raízes vitais. O mesmo será dizer que o apaixonado se sente completamente entregue àquele que ama; e por isso não importa que a entrega corporal ou espiritual se tenha cumprido ou não. (...) O essencial é que se sinta entregue ao outro, seja qual for a decisão da sua vontade [sublinhado meu].


E não há nisto contradição [entre o que nos faz fazer o amor e o que nos faz querer a vontade], porque a entrega fundamental não se efetua ao nível da vontade mas a um nível muito mais profundo e radical. Não é um querer entregar-se: é um entregar-se sem querer. E seja onde for que a vontade nos leve, vamos irremediavelmente entregues ao ser amado, mesmo quando nos leva ao outro lado do mundo para nos afastar dele.


(...)


É, pois, essencial no amor de que falamos a combinação dos dois elementos acima referidos: o encantamento e a entrega. A sua combinação não é acidental, nem mera coexistência, um nasce e alimenta-se do outro. É a entrega por encantamento.


(...) seria bom estabelecer como princípio geral da psicologia do amor este aforismo: Sendo o amor o ato mais delicado e total de uma alma, refletirá a sua condição e natureza. As características da pessoa que ama não devem ser atribuídas ao amor [sublinhado meu]. Se esta é pouco perspicaz, como poderá ser arguto o seu amor? Se é pouco profunda, como poderá ser profundo o seu amor? Segundo se é, assim se ama. Por esta razão, temos no amor o sintoma mais decisivo daquilo que uma pessoa é (...)".


(...)


Podemos separar claramente o amor das suas outras pseudomorfoses, como o ardor sensual e a "paixão". Assim como daquilo a que chamei "afeição". Na "afeição" - que costuma ser, no melhor dos casos, a forma do amor matrimonial - duas pessoas sentem mútua simpatia, fidelidade, adesão, mas não há encantamento nem entrega. Cada qual vive absorvido em si mesmo, sem enlevo, e a partir de si mesmo envia ao outro eflúvios suaves de estima, benevolência, corroboração.


O que foi dito basta para dar algum sentido a esta afirmação: se se pretende ver com clareza o fenômeno do amor, é preciso, antes de mais, que nos libertemos da ideia vulgar que vê nele um sentimento universal, que todos ou quase todos são capazes de sentir e se produz permanentemente à nossa volta, qualquer que seja a sociedade, raça, povo ou época em que vivamos. As distinções que as páginas precedentes esboçam, reduzem consideravelmente a frequência do amor, afastando da sua esfera muitas coisas que erroneamente se incluem nela. Um passo mais e poderemos dizer sem excessiva extravagância que o amor é um fato pouco frequente e um sentimento que só certas almas podem chegar a sentir; em rigor, um talento específico que alguns seres possuem, e que se dá geralmente unido a outros talentos, mas que pode ocorrer independentemente deles.


Sim; apaixonar-se é um talento maravilhoso que algumas criaturas possuem, como o dom de fazer versos, como o espírito de sacrifício, como a inspiração melódica, como a valentia pessoal, como o saber mandar. Nem a toda a gente se apaixona e aqueles que têm essa capacidade não se apaixonam por qualquer um. O divino acontecimento ocorre apenas quando se reúnem certas e rigorosas condições no sujeito e no objeto. Muito poucos podem ser amantes e muito poucos amados. O amor tem a sua ratio, a sua lei, a sua essência unitária, sempre idêntica, que não exclui do seu exergo as abundâncias da casuística e a mais fértil variabilidade.

("Para uma psicologia do homem interessante", in Estudos sobre o amor, 1939. Tradução do espanhol de Elsa Castro Neves)