16 de outubro de 2016

Antibiblioteca

"Umberto Eco dividia os visitantes de sua biblioteca pessoal (cerca de 40 mil volumes) em duas categorias: os que reagem com "Uau, quantos livros senhor tem! Quantos desses o senhor já leu?", e os outros - uma pequena minoria -, que entendem que uma biblioteca particular não é um apêndice para elevar o próprio ego, e sim uma ferramenta de pesquisa. Livros lidos são muito menos valiosos que os não lidos. A biblioteca deve conter tanto das coisas que você não sabe quanto daquelas que você se esforça para não esquecer. Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não lidos nas prateleiras olhará para você de modo ameaçador. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. De maneira que a verdadeira alma de uma biblioteca pessoal é a antibiblioteca que a sustém".

Adaptação de um trecho de Nassim Nicholas Taleb, contido em sua obra "A lógica do cisne negro".



28 de fevereiro de 2016

Relacionamento duradouro

Todo relacionamento duradouro é, de A a Z, problemático, ambivalente, difícil. A felicidade, nele, só existe em tensão (insolúvel) com a infelicidade. Este conflito é que o torna compatível com a vida; não fosse com ela compatível, não seria duradouro.

25 de fevereiro de 2016

Contemplativos e observadores

O sujeito contemplativo difere do observador. Enquanto este repara em tudo que lhe surge ante os olhos e ouvidos, aquele se demora ante coisas aparentemente invisíveis, mas que são percebidas por ele, não obstante, como presentes e atuantes. 

O contemplativo não costuma notar as pequenas mudanças de visual ou lembrar-se detalhada e objetivamente de fatos concretos, por exemplo. No entanto, de maneira alguma ele vive de fantasias ou abstrações, longe disso. É que sua atenção recai sobre coisas que ainda não estão dadas, não estão visíveis, mas que se insinuam, com insistência até, nas entrelinhas, nas fisionomias, nos pequenos gestos.

O contemplativo não vê, mas entrevê ou, como diria Manoel de Barros, transvêEm geral, é visto como distante, alheio, sendo facilmente confundido com aqueles outros que, muito diferentes dele, são apenas desatentos. Contemplativos e observadores, deste modo, mais do que se complementarem, suplementam-se.

É curioso notar os casais que reúnem tais caráteres, ou ao menos aqueles que conseguem  não é fácil  equalizá-los. O que mais revelam, ao simplesmente serem o que são, é que a vida humana não é um córrego a mostrar com transparência o solo sobre o qual flui, mas sim um oceano em que as superfícies, quanto mais se estendem, mais apontam para baixo, instigando nos mais vividos aquele fascínio sui generis pelas profundezas.

É aí que se manifesta o claro-escuro da vida, sem o qual ela só pode atrair os distraídos.

Um cuidado

Os acontecimentos algumas vezes desinterpretam a gente.

Perder alguém para a morte, ou, mais comum, para a vida, é uma ocorrência assim, e nunca sabemos de antemão como reagiremos. Não sabemos. Insisto: não sabemos. 

O término de um relacionamento no qual estávamos enraizados ou o falecimento, repentino ou não, de algum familiar ou amigo muito próximos, são, pois, situações que nos ultrapassam violentamente; diante delas, jamais reagimos, tim-tim por tim-tim, como imaginávamos.

Mesmo os que sempre esperam o pior não sabem o que esperam. Não sabem. Cuidado consigo, no sentido de buscar em si, de verdade, quem se é, é preciso. Nada garante um remédio eficaz, mas sem isso o colapso gradual está garantido.

Acontecimentos como esses podem ser enfrentados, nas primeiras horas, nos primeiros meses e até nos primeiros anos com muita coragem e temperança, mas não há como prever ou mesmo perceber sua influência em prazos mais longos. O tempo traz um tanto de sabedoria e paz a alguns, mas noto, sempre mais, que à ingente maioria ele traz mesmo é amargura: crescente, insidiosa, imperceptível aos desatentos (são tantos...).

Esta amargura não é bem uma tristeza, não impede ou inibe sorrisos. Ela cresce como uma desarmonia de fundo, revelada nas sutilezas mais do que nas intenções, reais ou fingidas, e o mais sério e difícil: não é passível de ser convertida por força da vontade. Sequer é consciente, muitas vezes.

Portanto, cuidado ao lidar com pessoas que perderam porções de si mesmas... Em tais circunstâncias, silêncio e presença, é sempre bom lembrar, fazem mais do que a vontade ansiosa de fazer alguma coisa.

Isto posto, não descuidemos das almas que nos ligam desde dentro uns aos outros, lembrando ainda, enfim, que se há uma coisa que a vida sabe fazer de uma hora para outra é nos sacudir com força. Cuidado.

Alguém

É bem possível desacompanhar-se de umas cem mil coisas tidas hoje como necessárias, mas não, não é possível viver bem desacompanhado desta coisa única: alguém. Viver na companhia de outrem em vez de entre coisas, no entanto, é estar ao lado de uns cem mil 'não, não quero', 'não, não vou', 'não, não gosto', 'não, não dá', 'não, agora não'... 

Que fazer, então, quando ainda por cima os 'sim, é claro' ou os 'claro, agora mesmo', contrapesos fundamentais, não mais se fazem ouvir? 


Bem, não sei: cada laço faz suas curvas, volteios, voltas e revoltas. Dificílimo  e errado  generalizar. Não obstante, talvez se pudesse dizer que refugiar-se naquelas cem mil coisas referidas acima, ao nos distrair dos problemas sem resolvê-los, piora inacreditavelmente a situação. 


Nota-se aqui a falta de alguém: que tenha a virtude, o desejo ou a disposição  o amor  de ir buscar no fundo de cada 'não' o 'sim' que ele encobre. 


Que fazer, pois, e em tais casos, senão isto: usar dia a dia os olhos e ouvidos a fim de descobrir, em meio às mil distrações e rotinas todas, e antes de tudo em si mesmo, alguém.

Verdadeiros terapeutas

Os verdadeiros terapeutas não são aqueles que se dedicam ao ofício nobre de conduzir pessoas à assunção de uma consciência o mais ampla e responsável possível, mas são aqueles outros que, desde tempos melhores que os nossos, são chamados de Exemplos

Não me refiro às pseudo-personalidades construídas em programas de televisão e que nos são impingidas como 'modelos de superação'. Isso é bobagem (pode ser real para quem vive, mas desperta falsidades em quem vê). O verdadeiros exemplos não se mostram para as massas... Não podem ser editados ou embalados para consumo. Eles não se vendem; passam longe da propaganda. Gostam mesmo é do anonimato.

Ser um Exemplo é algo tão significativo que a personalidade que o encarna quase nunca tem, deste seu valor, muita consciência. Ela chega a entrever a própria virtude, claro, mas não a ponto de estar dela convencida. Dificilmente falará como porta-voz de seus próprios atributos, deixando o que há nela de exemplar como que em estado de quietude e silêncio, a fim de ser descoberto por olhares e ouvidos atentos, sedentos de orientação. Nada há de mais terapêutico na vida do que encontrar os exemplos certos, manter com eles algum tipo de convívio e deixar que o tempo faça o seu trabalho.

8 de fevereiro de 2016

Aprendizagem literária

A arte literária ensina, mas não garante o aprendizado. Há muitos por aí lendo bastante sem que a literatura os desperte para nada. Leem buscando alguma aprovação ou porque ouviram desde pequenos que "ler é bom", "é hábito saudável", "estimula a inteligência", etc., seguindo, crédulos, o dogma multimidiático. Será que essas pessoas têm alguma noção do que a leitura exige para despertar suas inteligências?

Quando existe realmente para alguém, eleita como instância de formação e reforma da personalidade, a boa literatura transforma-se num órganon que enlaça lembranças, adensa experiências, enraíza ideias e organiza afetos. Nutrindo deste modo a alma, desperta nela a vontade de ser melhormente vivida e superiormente narrada.

A apreensão do húmus da vida, da essência que nos torna humanos e condiciona nossas existências, é o que enfim a arte literária nos ensina – certa soberania sobre nós mesmos. Para isto ela exige maturidade ou sensibilidade ética, aptidão que deve encontrar em potência e atualizar. Crescerá aí uma consciência que precisará viver ou manter-se corajosamente em crise; em agudo questionamento. De modo que a boa literatura exige dos seus leitores a manutenção de uma elevada tensão existencial. 

Se não desejarmos confrontar tais exigências, não nos restará outra atitude senão a de abraçar satisfeitos a mediocridade disfarçada, assumindo de vez o hábito estéril de ler como quem se distrai.

Imaginar, é.

Só os gênios da arte, os grandes pensadores e os mestres da moral conservam intacta a potência imaginativa da infância. Nós outros, à medida que crescemos, vamos nos aparvalhando até nos tornarmos adultos mais ou menos desprovidos dela. A miséria social em que vivemos vem daí, desta ausência de Diálogo entre fantasia e realidade.

Confiança

Nada há de mais importante, de mais fundamental para as relações que mantemos com os outros e conosco mesmos do que o respeito e a fidelidade à palavra empenhada. Confiança e autoconfiança são coisas muito, muito sérias. São ainda mais sérias do que o amor, que sem elas nada pode realizar de bom. Sim, as palavras que empenhamos, queiramos ou não, tenhamos ciência ou não disso, têm gumes afiados e muito peso. São como o desejo e a espada de Dâmocles...

Infelicidades da felicidade

Digamos da felicidade o que Santo Agostinho dizia do tempo: "Se ninguém me pergunta o que é, eu sei, mas se quero explicá-lo, não sei". Lamentavelmente, sempre foram poucos os capazes de separar, como Agostinho, a sensação de que sabem do conhecimento efetivo que possuem. 

Por outro lado, são muitos os que hoje incorporam o 'modo de pensar' da propaganda, tratando temas complicadíssimos como coisas simples, quando não banais. Essa questão da felicidade, por exemplo, reflete bem a falta de perspectivas adequadas. 

Quando converso mais detidamente com pessoas que dizem "buscar a felicidade", trombeteando, entre outros chavões, que "o negócio é ser feliz", o que encontro nelas, em regra, é uma extensa zona mental semiconsciente, enormemente confusa, onde grandes faixas de sensações concorrentes buscam apressadas uma frase de efeito, que, imediatamente consumida, dá a quem a diz, lê e/ou divulga a sensação de que sabe muito bem o que se passa consigo e com o mundo. Nada mais falso. 

O nome dessa desrazão é sensacionalismo: divulgação de impressões rasas, ávidas por reconhecimento imediato – é o que essa gente entende por "comunicação".

Impressões como essas são hoje destiladas em número cada vez maior, multiplicando-se na boca (e nas 'páginas') de pessoas que não desejam conhecer a fundo coisa alguma, querendo apenas embalar para consumo tudo que veem, ouvem e leem por aí. 

No tocante ao tema em questão, o livro Felicidade Humana, do filósofo espanhol Julian Marías, é leitura recomendável a todos os que sejam exceção à regra. É cada vez mais importante desenvolver sobre o tema diálogos radicados não no conjunto virtual e virtualizante das opiniões rasas, mas nesta vida mesma que, com maior ou menor confusão, esforçamo-nos todos por compreender e tornar feliz, ainda que nos contrariem as circunstâncias.

7 de fevereiro de 2016

Coragem, sacrifício e vocação.

Há um nexo orgânico, necessário para sermos alguém de verdade, entre coragem, sacrifício e vocação. No momento em que a verdade percebida é mais urgente, ninguém a diz sem coragem, ninguém a sustenta sem sacrificar-se, ninguém a encarna ou personifica sem conhecer sua vocação (sentido de vida). De modo que sem este trabalho da coragem, do sacrifício e da vocação, as verdades inadiáveis que tentarmos transmitir serão sempre por nós mesmos deturpadas ou falseadas, porque quem diz uma verdade que será experimentada como violência deve antes examinar se a sua própria vida a fundamenta e se sua consciência a autoriza. Se existe esse lastro, e ele pode responder em você, existe autoridade moral. Para adquiri-la: coragem, sacrifício e vocação.

22 de janeiro de 2016

Arte e desamparo: um pouco de Joyce e uma pitada de Freud

O artigo intenta, a partir da leitura de um romance de James Joyce e de uma proposição de Sigmund Freud, conjecturar sobre a possibilidade de a vivência do desamparo do bebê humano ser, desde que secundada por condições subjetivas específicas, o centro irradiador das vocações artísticas precoces. Considera-se que o surgimento de uma forte vocação é já uma obra de artista, um artifício de crianças que, desde muito cedo, percebem-se mais solitárias na lida com o mundo e consigo mesmas.
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No terceiro capítulo do romance de James Joyce, "Um retrato do artista quando jovem" (1916/2006), há uma pungente descrição dos tormentos morais vividos por Stephen Dedalus, protagonista da obra, que ao escutar a pregação de um padre sobre o destino das almas perdidas no pecado, começa a sofrer por antecipação as agonias do inferno descrito. O jovem católico, dezesseis anos de manifesta circunspecção, encontra-se num retiro espiritual organizado pelo colégio jesuíta onde estuda. Durante a série de homilias proferidas, Dedalus, ultimamente afastado dos deveres católicos e da piedade cristã, sente colidirem dentro de si, cada vez mais violentamente, o pendor para a tradição e o impulso para a insurreição. O resultado deste embate não é a superação dialética dos opostos, mas uma culpa terrível. Suas aventuras recentes, dentro de bordéis e prostitutas, bem como seus primeiros pensamentos autônomos, carentes de novos objetos, são por ele denunciados a uma consciência moral imatura e cruel, que, insuflada pelo sermão do clérigo, acusa-o de promover o pecado e corromper a religião. Sentindo que ultrajou definitivamente a majestade de Deus, o rapaz vê-se fazendo jus à pena máxima: a partida irremediável e definitiva para o inferno, lugar de torturas “intoleravelmente intensas” e “insuportavelmente extensas” (op.cit., p.142).

A dor vivida por Dedalus – tão real quanto viva é a imagem usada por Joyce – leva o jovem rapaz, findo o retiro, a encarar seus desejos como tentações a serem em tudo evitadas, o que o leva a quase exaurir o próprio corpo a fim de refrear-lhe os apetites pecaminosos. Esta atitude não revela outra coisa senão o surgimento de um generalizado horror de si mesmo, sentimento que não poucas vezes acometeu pessoas aparentemente muito equilibradas, aproximando-as da sensação esquizofrênica (gr. schizein: cindir, separar, e phren: espírito, ânimo) de estarem rachadas por dentro, laceradas.

Dá-se a esta sensação o nome de sofrimento moral, mas sua designação precisa é mesmo culpa. Esta aí, quando irrompe logo nas primeiras idades, obriga o sujeito a retorcer-se tão e tanto, que seu esgarçar é inevitável e pode conduzi-lo aos confins da experiência humana, lá onde a arte surge como uma forma singular de refrear a loucura do espírito.

Mas seria a culpa, então, a parteira do artista? Se descomplicarmos a questão, é isto o que nos deixará entrever Joyce. Mas é preciso dizer que a culpa, quando irrompe precocemente, faz mais do que apresentar ao jovem o lado moral do sofrimento. O tormento íntimo causado pelo sentimento de culpa não apenas leva o jovem a angustiar-se prematuramente, mas, com efeito, também o obriga a lidar muito cedo com as consequências desta angústia, pressão que o aproxima perigosamente da experiência radical da loucura, conduzindo-o à vivência da desrazão e dotando-o de uma característica comum aos loucos: a permeabilidade.

É de fato aí, neste lugar de passagem, que arte e loucura, não sendo em si a mesma coisa, confundem-se, levando este jovem a uma relação tão direta com o mundo que seus sentimentos em relação a ele e a si mesmo oscilam da piedade ao terror, marcando assim um compasso diferente dos demais. Esta ambivalência é um dos efeitos da permeabilidade aludida, e é causa da necessidade muito cedo observada neste jovem de ter que construir uma imitatio do mundo capaz de acolher não somente a sua dor, mas os sentimentos que ele aprende a colorir para compensá-la. Porque originalmente o mundo não foi capaz de acolhê-lo, este jovem – já podemos chamá-lo artista – precisará suplementar a realidade a fim de nela assegurar um lugar. É esta a razão da imitatio, deste suplemento [1] que, mais tarde, ele aprenderá a chamar de arte.

[NOTA 1: É importante frisarmos o sentido exato da palavra “suplemento”. Não é nem de longe o mesmo que “complemento”. Se complementar é juntar uma parte à(s) outra(s) a fim de constituir um todo, suplementar é acrescentar algo a um todo já constituído a fim de ampliá-lo, esclarecê-lo ou aperfeiçoá-lo. De modo que a arte não complementa ou completa o mundo, mas o suplementa.]

No caso da loucura, essa mediação imitativa, praticamente inexistente, é de forma muito precária realizada pelas construções delirantes, que são comumente indecifráveis e por isso incapazes de reivindicar qualquer função suplementar. Todavia, os delírios são importantíssimos porque oferecem ao louco a oportunidade de constituir um tempo próprio [2].

[NOTA 2: Constituir um tempo próprio é a base mesma da experiência da subjetividade, posto que reconhecer-se como sujeito implica a capacidade de preservar, sob a multiplicidade dos eventos cotidianos, uma única e mesma identidade fundamental. O louco, apesar da fragmentação que caracteriza a experiência delirante, nem por isso deixa de ordenar seus delírios segundo uma lógica. E ainda que essa lógica seja em sua essência incomunicável, constatá-la é já encerrar o louco dentro da vivência temporal – encerrá-lo, portanto, dentro da possibilidade de existir como sujeito.]

Por tudo isso, podemos afirmar que, apesar das diferenças, o fluxo temporal que caracteriza o artista no momento do arrebatamento estético e aquele que percorre o louco no surto delirante, ambos definem-se por uma experiência de permeabilidade entre o já representado e o ainda irrepresentável na experiência cotidiana. Em outros termos, arte e loucura são possíveis somente porque o tempo que as produz abre-se a uma enorme pluralidade de experiências e possibilidades, fator este que nos impede de enquadrá-lo, este tempo, numa ordem cronológica ou linear.

E, importante: tampouco o podemos definir, a este tempo, como psicológico. A razão disto é que essa vivência temporal, para ser permeável, precisa necessariamente se fragmentar: loucura e arte são tentativas de reintegrar esses fragmentos, produzindo nesse esforço não um Eu capaz de reconhecer fronteiras fixas entre fantasia e realidade, mas um Eu que, marcado pela fragmentação, e por isso tendente a estranhar-se a si mesmo, encontra enorme dificuldade (maior no louco, menor no artista) em definir o grau de interioridade ou exterioridade de ideias e sentimentos. É por isso que sua subjetividade não chega a ser interior ou psicológica, como o são aquelas que, reguladas por uma norma universalmente válida, compõem o conjunto dos sujeitos normais. Pois se estes organizam sua subjetividade a partir de modelos predeterminados, aqueles outros, os anormais, somente definem e organizam uma subjetividade quando de algum modo – próprio – conseguem expressar suas indeterminações essenciais.

Daí nos autorizarmos a dizer que o verdadeiro artista e o louco só constituem uma psykhé graças à mediação da sua arte e da sua loucura. De modo que o artista e o louco possuem psicologias artesanais. Possuindo uma organização anímica diferenciada, de tempos em tempos produzem uma experiência única: a loucura delira, a arte obra.

Mas voltemos ao romance de Joyce, procurando entender a partir dele o que significa unir-se ao mundo através de emoções tão díspares como o terror e a piedade [3].

[NOTA 3: Emoções que, segundo Aristóteles em sua "Poética", a tragédia deve despertar em seus espectadores a fim de purificá-los do excesso irracional que estes afetos, quando vividos na realidade, naturalmente despertam na alma humana. Purificada, pode a alma, então, usar a razão para transpor intelectualmente o drama visto no teatro, transformando-o em conhecimento]

É o próprio Dedalus quem nos oferece aqui uma pista, ao pretender, anos mais tarde – e partindo da tradição intelectual aristotélico-tomista na qual foi educado –, definir estes sentimentos a fim de sobre eles assentar uma teoria própria da experiência estética. Chega a formular, assim, as seguintes proposições:

"A piedade é o sentimento que detém a marcha do espírito na presença de tudo que é grave e constante nos sofrimentos humanos e o une ao sofredor humano. O terror é o sentimento que detém a marcha do espírito na presença de tudo que é grave e constante nos sofrimentos humanos e o une à causa secreta" (JOYCE, p.216).

De fato, quando o sentimento de culpa irrompe, este terror torna-se tão presente e real que mesmo a ideia de uma instância de infinita consternação e penas eternas, malgrado o pavor que inspira, oferece à alma a possibilidade ímpar de elaborar sua experiência fundamental, a “causa secreta” de todos os seus terrores e piedades possíveis. Uma experiência que, por ser raiz e fundamento, é inacessível à memória consciente, e, exatamente por isso, essa expressão usada por Dedalus, “causa secreta”, define bem a forma que tal experiência assume em nossas vidas: a de um determinante absoluto e insabido, e por isso “grave e constante”. 

Mas eis o mais formidável: se James Joyce faz seu personagem – o artista – dizer que é o sentimento do terror que liga o humano àquilo que o causa, então, conclusão lógica, ele propõe a ideia de que esta causa é terrificante, o que significa, substituindo a linguagem literária pela terminologia psicanalítica, que ela é traumática. Podemos consequentemente inferir, a partir das palavras do autor, que o espírito humano é – como já a psicanálise havia proposto – estruturado por um trauma. Mais ainda: Joyce subentende, por colocar a ideia na boca e na vida do artista, que a arte é uma forma de dizer e presentificar essa experiência.

Proposta a ligação entre terror e trauma (calcada na afinidade estrutural entre literatura e psicologia), podemos agora articular essa ideia de “causa secreta” do espírito àquela outra teorizada por Sigmund Freud: a do desamparo inicial do bebê frente às suas necessidades de alimentação e segurança.

O objetivo deste artigo é fazer com que o sofrimento de Stephen Dedalus funcione como exemplo das dores morais que podem conduzir alguém à arte, entendendo com isso, é claro, que ninguém se torna artista impunemente. Procura-se criar aqui um jogo de espelhos entre ficção e realidade, um vaivém de sombra e luz capaz de revelar, como no poema de Drummond, a pedra no caminho. Aliás, a pedra do poeta oferece excelente analogia para pensarmos esse traumatismo inicial. Interpretando livremente o poema, percebemos que a pedra necessita da insistência dos versos para ser notada como parte de todo e qualquer caminho. Reparemos que também ele, o trauma, é pedra e é caminho; também ele precisa repetir-se ao longo da vida para que sua origem imemorial possa ser, de alguma forma, subjetivada ou temporalizada. É como diz outro poeta maior, João Cabral de Melo Neto, que, ligando à concreção o sentido de sua arte, convoca-nos a “aprender da pedra, frequentá-la”.

Mas não esqueçamos Freud. Segundo o fundador da psicanálise, “o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte originária de todos os motivos morais” (FREUD, 1895/2003, p.196). Em outras palavras, a maneira como o bebê é atendido em seu completo desamparo inicial (maneira que se revela na disposição afetiva dos cuidadores) determina um conjunto de marcas psíquicas que funcionam como referência inconsciente para o estabelecimento de um estado interno de maior ou menor percepção deste desamparo. Quanto maior sua percepção, maior a produção de fantasias e o aparecimento de lembranças que terão como tema o abandono. Em situações de neurose explícita, essas fantasias e lembranças acompanham-se de intenso colorido afetivo, determinando a existência de um forte sentimento de abandono.

Neste caso, e considerando a analogia desenvolvida neste artigo, parece-nos legítima a tentativa de desentranhar do romance de Joyce alguns elementos que nos permitam pensar uma diferença (muito esquemática, é claro) entre a presença desta angústia no artista e no não-artista. Assim, vamos supor que no não-artista o sentimento de abandono tende a gerar mais ressentimento que culpa, enquanto no artista tende a produzir mais culpa que ressentimento. Bem, culpar-se em vez de culpar o outro já demonstraria uma primeira postura autônoma, sem a qual não haveria arte possível. Com efeito, esta oscilação que aproxima o sujeito da culpa é já um artifício, uma forma arcaica, artesanal e eficaz de minimizar os efeitos dolorosos da posição passiva que a criança assume frente ao abandono, seja ele real (caso mais grave) ou fantasiado. Transferindo para si a responsabilidade pelo abandono, e lidando sozinha com a dor do desamparo, a criança sofre, acabrunha-se, isola-se; todavia, cresce longe da necessidade de culpar os outros para sentir-se viva, abrindo-se para ela, assim, a chance de viver e agir um tanto mais ativa e autonomamente, ainda que em grande sofrimento.

Por outro lado, pode ser que a inscrição psíquica do abandono sequer aconteça, caso em que a criança não chega a se diferenciar daquela mãe que, em tudo invasiva, esmaga o psiquismo da criança com sua presença: é a origem de muitos estados psicológicos graves.

Mas há ainda um terceiro caso, representado pela presença equilibrada dos cuidadores. Nessas condições, a sensação de abandono ganha uma tonalidade afetiva branda, fazendo com que o desamparo inicial subsista no psiquismo apenas como ideia vaga do que seja esse trauma. Esta terceira situação, que é por excelência a do não-artista, é considerada a mais natural e menos sofrida, o que não impede que também nela a arte se faça presente como meio de expressão; contudo, já não será um impulso primordial para a subjetivação, mas uma vontade (ou necessidade narcísica) mais ou menos legítima de obter reconhecimento.

O ponto principal em tudo isto, aquele que justifica a afirmação de Freud citada acima, é a constatação de que, independentemente do tipo psíquico sob análise, a qualidade de amor/ódio que acompanha o movimento de aceitação/negação dessas forças afetivas é o que determinará, em última instância, a maneira pela qual o sujeito sentirá o bem e o mal ou se postará diante das convenções (eis aí os “motivos morais” dos quais o desamparo inicial é a fonte). Nascido do abandono e da culpa, o artista é aquele que sempre vê como insuficientes os contratos sociais e a realidade moral, tendo por isso de suplementá-los através da arte e ao longo da vida.

Mas pode haver ainda outra dificuldade. O medo de reviver esse traumatismo inicial pode acarretar, no artista, crises de angústia tão intensas quanto insuficientes podem ser os seus esforços de suplementação da realidade. E se acontece dele ter de viver sistematicamente essas crises, das duas, uma: ou vê sua arte sendo acolhida como parte integrante do mundo, fato que pode compensar seu medo do abandono, ou não suporta as crises e, independentemente da arte que ainda possa produzir, enlouquece.

Podemos considerar, portanto, que a alegoria do inferno no romance de Joyce é não apenas uma alusão a este enorme medo de reviver o abandono, como também é o modo pelo qual o autor, através da arte literária, ensina-nos algo sobre a possibilidade de ligar a constância e a intensidade deste temor às grandes vocações artísticas.

Com efeito, o quinto e último capítulo do romance confirma essas reflexões, mostrando que o medo de Dedalus não se prende a um objeto em particular, mas é índice da presença constante do que Stephen designa como “causa secreta” do espírito – causa terrível, recordemos – e que agora já podemos entender como a “fonte originária de todos os [seus] motivos morais”.

Evidenciando essa capacidade de deslocamento e permanência do medo, vemos neste último capítulo que apesar de o rapaz realmente perder o receio de ser abandonado por Deus, seu medo apenas muda de figura ou objeto, recaindo sobre uma jovem que durante anos foi alvo de sua inibida contemplação amorosa. Pois ele agora terá de lidar com a percepção de que novamente o Amor o desdenha: também a moça, portanto, abandona-o. Sua reação a esta segunda crise de medo – crise menos aguda, posto que já mediada pelas primeiras manifestações poéticas – consiste em manter-se indiferente à indiferença com que supostamente é tratado, tentando assim dominar o impulso “grave e constante” que, para além de Deus e da moça, termina por levá-lo a querer distanciar-se de todos os ambientes familiares. Diz ele:

"Não servirei mais àquilo em que não acredito mais, quer isso se chame minha família, minha terra natal ou minha Igreja; e procurarei me expressar por meio de uma certa forma de vida ou de arte tão livremente quanto possa e tão totalmente quanto possa, usando em minha defesa as únicas armas que me permito usar: o silêncio, o exílio e a astúcia" (JOYCE, 1916, p.259,260).

Por que falar em armas de defesa? Defender-se de quê? Da sua família, da sua terra natal e da sua igreja? Ou da impressão de que o lar, a pátria e a igreja, não podendo aceitar ou compreender seus sentimentos, abandonam-no? Pois é esta constante reedição do desamparo que o faz sofrer de forma velada, cultivando em si a esperança inesgotável de poder construir uma vida e uma arte que enfim possam dar a ele o que os outros não puderam: acolhimento. É como chega a dizer ao amigo confidente, Cranly, que o pressionava a reconhecer algumas fragilidades:

"Você me fez confessar os medos que tenho. Mas vou lhe dizer também aquilo que não temo. Não temo estar só ou ser rejeitado por um outro ou abandonar o que quer que eu tenha que abandonar (op.cit.,260)"

O artista, ainda rapaz, nega temer o desamparo. Mas este é mais um exemplo de que para nos livrarmos do inferno que é não sermos amados como desejaríamos, é necessário não apenas expressar nossos temores, mas nos apropriarmos verdadeiramente deles. É o que Stephen Dedalus ainda não pode fazer, mas é o que James Joyce faz quando cria Stephen, e é o que fazemos todos nós quando lemos os grandes escritores.

Para esta tarefa de superação dos próprios e coletivos fantasmas, forçoso é convocar a arte, ainda que nenhum talento artístico se apresente de antemão. Como se vê em Joyce, através de seu protagonista, a arte se desenvolve naqueles que não perderam tempo culpando os outros pelas suas dores, mas se responsabilizaram. Ainda que alto, pagaram o preço. De modo que este breve artigo conclui-se afirmando que se os infernos são matéria prima para o universo humano, eles o são na mesma medida em que a arte, raiz cravada neles, é o refazer interminável do retrato do artista.

Referências bibliográficas essenciais:

FREUD, Sigmund (1895). Projeto de uma psicologia - obras isoladas de Freud. Trad. Osmyr Faria Gabbi Junior. 1ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 2003.

JOYCE, James (1916). Um Retrato do Artista Quando Jovem. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

Nota: a origem histórico-filosófica dos discursos sobre a alma (psicologias)

De acordo com o ilustre filólogo alemão Wilamowitz-Moellendorff, "Heráclito foi o primeiro a pensar seriamente, ou mesmo a ter algo a dizer sobre a alma do homem". 

Segundo Karl Reinhardt, outro grande erudito alemão, em Heráclito de Éfeso podemos encontrar "pela primeira vez uma psicologia digna desse nome". 

Também Bruno Snell, alemão ainda e helenista renomado, tratando do aparecimento, em fins do período arcaico grego, da noção de "profundidade" ou de uma alma que engloba e excede o corpo por ser "profunda", diz que "foi Heráclito o primeiro a dar-nos essa concepção". 

Eric Voegelin, filósofo anglo-germânico, reconhece, neste mesmo sentido, que "Heráclito foi o primeiro pensador a explorar a alma em profundidade - identificando sua tensão, sua dinâmica, sua estrutura". 

Charles H. Kahn, respeitado especialista norte-americano em filosofia grega e antiga, afirma, por sua vez (no que é seguido pelos especialistas Thomas M. Robinson, canadense, e Giovanni Reale, italiano), que a concepção de alma desentranhada dos fragmentos do efésio é, de fato, original.

Retomando e desenvolvendo o trabalho dos estudiosos alemães supracitados, Kahn nos informa que Heráclito realmente conseguiu, de forma inédita, relacionar a noção homérica de sopro ou alento vital às noções vigentes e desmembradas de 'inteligência' (dos pitagóricos), de vida afetiva (dos poetas líricos) e de mundo físico (dos jônicos), aprofundando e unificando essas noções à luz de uma intuição psicológica definitiva: a da existência, em cada sujeito humano de carne e osso, de uma estrutura oculta que mimetiza e responde, "profunda" ou inconscientemente, à estrutura invisível e omniabarcante da razão (lógos) universal. À esta estrutura íntima, recôndita, de caráter pessoal intransferível, Heráclito chamou de alma (psykhé). Com isso, inaugurou a possibilidade de cada ser humano compreender sua interioridade como reflexo particularizado, ou expressão em menor escala, das claridades e mistérios da ordem (Kósmos) universal.

Essa intuição, de fato, transformou o entendimento da alma humana.

Antes de Heráclito, o termo grego 'psykhé', denotando apenas um princípio biológico ou emocional sem muita importância, não era encontrado nem nas descrições que se faziam da phísis (mundo físico), nem naquelas outras que buscavam investigar o mundo ético-político ou racional do anthropos (ser humano). Esses mundos, sentidos como inteiramente dependentes dos deuses e/ou das leis da Cidade-Estado, não eram vistos, com efeito, como possíveis expressões do subjetivo. A complexa experiência de perceber-se a si mesmo como um ser biograficamente relevante, consciente e responsável (experiência de ser uma subjetividade), era algo desconhecido no período arcaico da cultura grega. Mas porque Heráclito pôde pensar essa alma não como um princípio impessoal de vida, mas como sendo ela mesma esse centro unificador e irradiador de tensões pessoais "profundas" e comuns a todos, movimentos de alcance ético, como o Teatro, e de aprimoramento intelectual, como a Filosofia, puderam surgir e se articular. Com efeito, foi a partir daí que homens como Sófocles e Sócrates puderam fazer da alma humana, respectivamente, um palco para infindáveis dramas de consciência e uma escada para esferas mais altas de vida interior.

Não fosse a visão grega em geral e a de Heráclito em particular, obras aparentemente heterogêneas e tão fecundas quanto as de Edmund Husserl e Sigmund Freud, escritas 2.400 anos depois, não poderiam ter sido sequer imaginadas. 

Exemplos (há muitos): tanto a concepção de Husserl relativa à correlação entre Ego transcendental e Mundo-da-vida (correlação que constituiria a própria possibilidade de haver uma experiência humana sobre a face da terra) quanto aquela outra que autorizou Freud a psicanalisar a figura histórica de Moisés, propondo, a partir dela e de sua experiência clínica, uma interpretação do fenômeno religioso e do monoteísmo, enraízam-se em Heráclito, que foi, como se disse, o primeiro a ver e a falar de uma correspondência entre a estrutura da alma individual e as estruturas tanto da realidade material quanto da cultural (ou 'interssubjetiva'). 

Desde então, um mundo de pensadores - a começar por Platão - pôde ver ou constatar a mesma analogia, trabalhando para que essa relação tensa e de mútua ressonância entre mundo interno e mundo externo, ou entre ordem natural, ordem subjetiva e ordem cultural (e, numa outra chave, individual e social), fosse evidente para nós. 

Cit.: "Jamais seria possível descobrir os limites da alma, ainda que todos os caminhos fossem percorridos; tão profunda é a sua medida" (Heráclito de Éfeso, fragmento 45).

Origem mito'stórica do cuidado da alma (alumbramento)

O Uno educou o Múltiplo, o Ancião educou a Criança, Sócrates educou Platão. 
Isto aconteceu no Sempiterno, antes da Frivolidade do Tempo emprenhar, 
inaugurando invernos, tempos vis, índoles más. 
Foi antes do primeiro inverno 
que ensinou Sócrates o seu último mistério. 
Retirou-se depois para o Imo grego de Platão, 
para o insabido fundo de seu coração ático. 
Lá hibernou, arquetípico, paradigmático.

Mil vidas, idas e vindas após, com a memória lavada pelas mortes, 
sentiu Platão, o Redivivo, brotar daquele Imo, feito imemorial,
um sussurro, alto cochicho, que o invocava, manso mas cabal. 

Intrigadíssimo, mas a ignorar deste sopro a origem significante, 
Platão, o Principiante, sem saber agora o que outrora mais sabia,
disse: "Sócrates?..." , e escutou, do Imo: "Deixe a mente vazia".

Então, sob o influxo da ordem, e ao som do nome sacro,
uma a uma das mil vidas foi regressando à vestal memória,
e Platão viu-se Múltiplo, dos seus Eus o último: sua palmatória.
Castigado pelas reminiscências (ó tempo perdido),
viu o Aluno que o Mestre poderia libertá-lo
do restante esquecimento, e tarde,
mas sem delongamentos, arrependido,
fez do Uno a sua única deidade.

Assim, primeira vez em mil vidas,
reviu Platão as verdades aprendidas,
e nelas reconheceu o Bem de todos - não só o seu.
Decidiu, pois, ante as trevas mundanas, mostrar as lições que reaprendeu.
Mas tais luzes, percebeu, não poderia exibi-las nuas.
Vestidas foram, deste modo, com prudência, em ricas alegorias, belas figuras,
tornando amenas as mil labaredas que, descuidadas, arderiam até a secura.

Codificada na letra platônica, a luminescência socrática despertou, dos áticos,
a grã inteligência, resgatando-a da vil, vã discurseria, revelando,
na Luz que dá à luz, a Arte ímpar da dual coreografia: os Diálogos.
Que das palavras às Ideias e destas à Sabedoria, chamou-se, com amor, filosofia.
De modo que o sol, real alegoria, já luzia mais no Espírito
do que em Natura ou nas Cidades, e a Dialética, a nova arte, logrou reconciliar
o Uno e a Realidade.

Porém, viver sob as luzes da una verdade exigia, de todos, mais:
que se dedicassem, sem descontinuação, à escalada e à escavação
de si mesmos. Não sozinhos, mas nas pegadas do Ancião.
Somente assim, com suores e esforços, mudariam a paisagem interior,
descerrando-a para além da dor, e o imenso céu e a inteira terra,
agora dentro mais do que fora, fossem vistos como o Fundamento:
Memória que a tudo encerra.

Descobertas as Alturas, pr'onde tendem à vera, e as Profundezas, donde vêm ébrios,
ouviriam dentro de si o amável comando, o infindável eco: seja sábio!... 
Então, diante dos primeiros céus e abismos edificados, disse Platão, manso, ajuizado:
"é preciso que cada um, agora apto a reconhecer a Beleza, doravante pronuncie, incandescido de alegria e com a vida tesa, já salva, as palavras imortais, do mais íntimo Imo fundantes: Minha Alma!"

Nunca mais se poderia descuidar dela, desta mansa, nova e imperecível sina: a Imortalidade
da alma: que agora será sempre e desconhecerá mortes.
Platão ensina, pois, o que havia em si e jamais houve antes:
a sua e a socrática sorte.
Imbuída de sua missão, exortou Criança às suas crianças,
expondo a elas de sua ágrafa doutrina o coração pulsante:

Cuidem das suas almas e das almas uns dos outros, 
muito certos de que o despertar para a verdadeira vida 
só alcança os intelectos que se fazem herdeiros
do imortal Eros divino, da Penúria e da Abundância filho, 
e com ele convertem-se à busca do Bem e do Belo, 
mas também à da Una Verdade, comovidos pelo anelo 
de ofertar ao passado as suas lamúrias e ao futuro os seus lares.


Testemunhas do Destino!, combatam os desatinos da Frivolidade: 
o esquecimento, o mal, o saber de quem acha que sabe. 
Para bem-aventurarem-se em tal diligência, 
devotem-se vocês à contemplação das Essências, 
e ao Cuidado da Alma,
que dão ao Espírito Unidade 
e ao Corpo o que o salva.


Vão!, múltiplos de Sócrates, mostrar ao mundo, 
contra tudo e a todos no tempo, 
que o Uno fez de vocês almas fortes: 
seu mais claro e entranhado fundamento.

21 de janeiro de 2016

Eletromagnéticos, uni-vos!

Num mundo que estimula cada vez mais a virtualidade, diminuindo assim a voltagem das relações humanas, isto é, a diferença de potencial elétrico existente entre as pessoas  diferença que instaura entre elas correntes afetivas –, bem, num mundo como este, não tem jeito: para nos colocarmos frente aos outros, e compreendermos não o que dizem, mas o que de fato desejam, sentem e pensam, precisamos impor limites a tais virtualidades.

Receando cada vez mais manter essas correntes afetivas ligadas, a fim de evitar choques, os contemporâneos entregam-se sem reflexão às relações virtuais e à sua baixa voltagem  ou baixa realidade , assumindo aí posições que, por dispensar a prova do olho no olho, induzem as pessoas a falar e a se comprometer com mil e uma bobagens.

É um engano partir do pressuposto de que podemos, assim imediata ou virtualmente, fazer uma ideia adequada da vida alheia. Falamos como se soubéssemos muito bem o que vivemos nós mesmos, e este suposto saber nos habilitasse a julgar, de antemão ou em tempo real, as situações concretas enfrentadas por nossos semelhantes. Não. Talvez essa ilusão funcione no diálogo virtual com perfis virtuais, mas a verdade é que diante de um corpo humano vivo, que fala ou convive conosco, que nos interpela ou intima, que nos faz e desfaz favores, que sorri e nos irrita ao mesmo tempo, que eleva com sua presença a voltagem e a amperagem do relacionamento, a verdade é que diante dele quase nunca sabemos o lugar que nós mesmos vamos ocupando: se de pólo positivo frente ao negativo, quando doamos ao outro, ou se o contrário, quando recebemos dele; se de pólo positivo junto a outro positivo, quando tudo pode acontecer; ou se de negativo diante de outro negativo, onde nada acontece.

Diga-se o mesmo em relação a todas as polaridades humanas possíveis e seus inúmeros modos e combinações imagináveis: ativo-passivo, sujeito-objeto, amante-amado, experiente-inexperiente, amigo-rival, senhor-servo, algoz-vítima, agente-paciente, racional-emotivo, pessoal-impessoal, idoso-jovem, estranho-familiar, masculino-feminino, ou todas estas e ainda muitas outras polarizações em sucessões, graduações e simultaneidades tão ou mais complexas quanto as de uma molécula de ADN, e que nos escapam rumo à inconsciência, donde se conclui a dificuldade extraordinária de ainda ter, depois disso, de encontrar o lugar concreto do outro, para daí interpretar suas vivências com alguma destreza.

Se não nos guia um esforço biográfico de coerência e consciência, pautado por fins e valores claros, concretos, enraizados em estratos profundos e sadiamente inconscientes, não adianta: acabará sendo impossível saber o lugar que ocupamos todos neste mundo virtualizante, e o resultado será a desorientação geral. Isto porque a vida humana, queiramos ou não, é sempre um drama difícil de acompanhar: seus lugares se confundem, suas tramas se imbricam, suas conexões se escondem; emaranhando-se, embaralham o que já sabíamos com o que não sabemos, as antigas intensões com resistências novas, os valores virtualmente defendidos com os realmente assumidos, etc., gerando com isso mil opacidades e posições ambíguas, fragilidades que uma vida vivida em demasia no mundo virtual sente e padece sem dar-se muito conta disso, situação que a vai enfraquecendo através da perda gradual do que poderíamos chamar de seiva humana, isto é, contato demorado com os outros e seus valores.

Não se trata de abdicar das benesses do mundo virtual, mas de compreender que tal mundo não modificará a condição humana, que exige, do ser humano contemporâneo, agora mais do que nunca, um trabalho contínuo de auscultação e transparescência de si para si mesmo. Trabalho sem fim, sempre insuficiente, irrealizável sem a presença corporal dos outros, mas absolutamente necessário para avaliar situações complexas sem ingenuidades e com responsabilidade, sustentando diante da vida alguma dignidade, condição sem a qual não poderemos ser reconhecidos, ouvidos e vistos desde um centro ou posição clara. Se recusamos este trabalho, entregando-nos aos descentramentos da vida virtual, com o tempo nos desenraizamos ou nos virtualizamos, moléstia da qual a tagarelice é um dos sintomas mais evidentes.

Às vezes trágica, outras comicamente, expressa-se pela tagarelice uma incapacidade total de compreender e influenciar o que quer que seja. O tagarela é assim um exemplo deste sujeito desprovido de seiva, virtualizado, e por isso constantemente atropelado pelas circunstâncias. Quanto mais fala, menos autoridade tem sua voz. Porque não tem raízes suficientes, quanto mais age mais arrisca tombar. Não é à toa que o ramerrame cause tanto mal-estar em quem procura, ao contrário, enraizar-se ou situar-se antes de abrir a boca.

Pois para se colocar no lugar concreto do outro, a fim de realmente compreender o que deseja, sente e pensa, precisamos, antes e sempre, auscultar e escutar, procurando falar e responder desde o imo, único lugar onde é realmente possível um nexo compreensivo: é o famoso e já citado olho no olho. Dispensando esta âncora, estaremos todos à deriva e em rota de colisão uns com os outros.

Autoconhecimento?

Todo cuidado é pouco com o chamado autoconhecimento. Não somente porque, a rigor, sua posse é impossível, mas porque sua busca pode levar, às vezes inadvertidamente, ao rompimento de antigos e importantes laços.

Por outro lado, há de fato pessoas que nos parecem conhecer muito a si mesmas; pessoas capazes de narrar suas vidas com coerência e sensatez, descrevendo suas existências com um poderoso sentimento de que estão a dar conta de quem são. Essa capacidade de lançar sobre a própria vida um olhar que a estruture ou organize não é, contudo e rigorosamente falando, conhecimento, mas reconhecimento. Não é conhecer-se a si mesmo, mas reconhecer-se em si mesmo, o que é bem diferente. É saber-se passado. É biografar-se. É ter-se em segunda mão. É, enfim, uma grande virtude, e deveríamos respeitar seus limites. 

Porque um verdadeiro autoconhecimento exigiria mais do que saber contar histórias ou descrever ciclos de vida: implicaria a decifração e a conjunção dos ritmos, trajetórias, sentidos e proporções que a alma perfaz e cria ao mover-se nos céus inconscientes, o que daria a alguém a capacidade de prever e modificar todas as suas ações, reações, ideias, emoções, volições, etc.

Se um tal conhecimento de si mesmo fosse possível, ele geraria tamanha inteligência da condição humana que, diante de tal sapiência, as dores do mundo estariam vencidas e o sábio que as tivesse subjugado seria uma espécie de divindade. 

Quem vai em busca de autoconhecimento talvez não saiba que, lá no fundo, pode estar trocando um comum e comedido complexo neurótico por uma neurose pra lá de complexa.

Algo

Quase nunca sabemos a fundo do que falamos ao falarmos de nós mesmos ou das relações que mantemos. Todavia, sempre que abrimos a boca, não importa por qual motivo ou com qual intenção, algo do que real e profundamente sabemos sobre nós mesmos e sobre essas relações; algo a respeito do que mais importa; algo sobre o que estamos a fazer neste mundo; algo ligado às nossas mais profundas simpatias e aversões; algo assim circula, movimenta-se, ruma numa direção perfazendo um sentido.

Este sentido chama-se, tradicionalmente, alma ou espírito. Não se chama eu. De modo que ao nos identificarmos sem mais com este pronome reto, deixamos cair, esquecido, dia após dia, algo deste algo que nos constitui. 

Isso significa que as nossas almas são feitas de algo que, ignorado pelo eu, nos escapa o tempo todo. Assim, algo deste algo precisa ser incessantemente aprendido ou recordado, a fim de que algo se manifeste no horizonte da consciência como destino

Ainda que não saibamos, é para este horizonte que as nossas questões mais prementes, como súplicas, se dirigem. São estas, e não os pronomes do caso reto, que em seus consultórios os psicoterapeutas buscam escutar.

20 de janeiro de 2016

Contrapesos

Assim como pesos precisam de contrapesos - ou pesos contrapostos - para que se possa garantir com eles alguma estabilidade aos movimentos circulares de um rotor, as dores humanas precisam igualmente de contradores - que são outras tantas dores - a fim de assegurar com elas alguma estabilidade às dinâmicas da alma, mantendo-a deste modo em condições de contrastar, discernir e elaborar os dramas de que padece. Em outras palavras, expressões como "só me faltava essa" ou "quanto mais eu rezo mais assombração aparece" são muitas vezes o sinal não de um problema a mais, simplesmente, mas da chegada do remédio amargo. O desespero humano nada tem a ver, portanto, com o acúmulo de problemas, mas com a intolerância de um único problema a todos os outros.

Vida adulta

A finalidade da vida adulta não é adequar as pessoas ao realismo da vida em sociedade, mas fazer com que homens e mulheres, diante de outros homens e mulheres, percebam em quê, e como, para o bem e para o mal, já são alguém de verdade. A maturidade, portanto, não reflete uma adequação social, mas deve, antes, refletir o oposto: um discernimento quanto a tudo aquilo que nos distingue dos outros, até mesmo dos que nos são mais afins.

Sem este senso da própria singularidade, como reconhecer a singularidade do outro ou seu potencial de alcançá-la? Sem o senso da própria singularidade e o seu corolário, que é o reconhecimento da alheia, como não nos transformarmos em vaquinhas de presépio ante familiares e amigos, ou em números submetidos à tirania da quantidade? Sem essas qualidades, como sentir a alegria e o espanto de ainda assim sermos todos semelhantes?


Somos todos semelhantes e diferentes não somente genética ou biologicamente, mas essencialmente, ontologicamente, radicalmente 
 por que não dizer: dramaticamente. À percepção inicial e sensorial da semelhança ontológica deve seguir-se um processo lento de diferenciação ou individuação, em que a percepção vai se tornando cada vez mais capaz de apreender, no âmago da alma, a diferença essencial  singularidade  que a distingue de todas as demais. Em suma, os seres humanos são (mas também devem tornar-se) sínteses únicas de inumeráveis séries de semelhanças e diferenças constitutivas. É sobre tais séries que se fundam e se formam os afetos capitais do amor e do ódio.


Isso nos faz recordar que a vida humana não existe a não ser simpática ou antipaticamente, isto é, diante de pessoas concretas que nos afetam de maneira concreta em situações concretas. A maturidade, assim, diz respeito ao desenvolvimento da esfera afetiva, que somente se dá em âmbito pessoal ou particular, e não no social ou público, onde ela, a maturidade, pode ser apenas simulada, jamais desenvolvida ou vivida. A vida adulta, por isso, exige que as pessoas se assumam como são e se responsabilizem por isso: sempre mais.


É exatamente ela, a responsabilidade 
 ou a capacidade de responder por quem se é  –, o que depura, compromete, amadurece. 


Considerando, agora, que o que há de mais íntimo em alguém só existe em conexão com o que há de mais íntimo em outrem, e, também, que esta conexão é o que chamamos de intimidade, concluímos que em nossas almas esta só brota, fecundante, fértil, real, quando assumimos consciência da importância fundamental da virtude enunciada acima, a responsabilidade; que, por ligar-se intimamente aos outros, só deste modo emerge em nós, diferenciando-nos.


Eis o fundamento da verdadeira moral ou da vida interior, que, ao debruçar-se sobre o mundo, transforma-se em inteligência, que é, em seu sentido mais nobre e filosófico, a capacidade de apreender, nas pessoas, coisas e circunstâncias, aquilo que lhes é superlativamente interior: o íntimo, a essência.


Vida adulta, assim, é aquilo que nos reúne íntima, responsável e intelectualmente uns aos outros, conscientizando-nos do cuidado que devemos à alma que temos e à alma que, juntos, mantemos. Quanto maior o grau de responsabilidade, maior o enraizamento na realidade íntima. Quanto mais enraizados nela – na realidade concreta da intimidade –, mais inaptos estaremos para a vida de servidão voluntária idealizada nas engenharias sociais.


A vida feliz, por fim, decorre da conjunção, promovida pela verdadeira educação, desses quatro fatores: singularidade, responsabilidade, intimidade, inteligência. Excluídos deste círculo virtuoso, somente nos sentiremos 'felizes' se, imersos em prazeres sensoriais, pudermos esquecer que eles se extinguem com a idade, dores e doenças. Incorporados ao círculo, até o sofrimento nos fará, mesmo com dificuldades, sorrir. Há algo mais valioso? Quantos prazeres fáceis valem esta difícil bem-aventurança?


As repostas possíveis, aqui, vão do adulto imaturo e caprichoso, avesso a compromissos que o revelem, ao homem e à mulher que, pelas razões expostas acima, já não temem envelhecer, porque já sabem quem e o que são.