22 de janeiro de 2016

Arte e desamparo: um pouco de Joyce e uma pitada de Freud

O artigo intenta, a partir da leitura de um romance de James Joyce e de uma proposição de Sigmund Freud, conjecturar sobre a possibilidade de a vivência do desamparo do bebê humano ser, desde que secundada por condições subjetivas específicas, o centro irradiador das vocações artísticas precoces. Considera-se que o surgimento de uma forte vocação é já uma obra de artista, um artifício de crianças que, desde muito cedo, percebem-se mais solitárias na lida com o mundo e consigo mesmas.
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No terceiro capítulo do romance de James Joyce, "Um retrato do artista quando jovem" (1916/2006), há uma pungente descrição dos tormentos morais vividos por Stephen Dedalus, protagonista da obra, que ao escutar a pregação de um padre sobre o destino das almas perdidas no pecado, começa a sofrer por antecipação as agonias do inferno descrito. O jovem católico, dezesseis anos de manifesta circunspecção, encontra-se num retiro espiritual organizado pelo colégio jesuíta onde estuda. Durante a série de homilias proferidas, Dedalus, ultimamente afastado dos deveres católicos e da piedade cristã, sente colidirem dentro de si, cada vez mais violentamente, o pendor para a tradição e o impulso para a insurreição. O resultado deste embate não é a superação dialética dos opostos, mas uma culpa terrível. Suas aventuras recentes, dentro de bordéis e prostitutas, bem como seus primeiros pensamentos autônomos, carentes de novos objetos, são por ele denunciados a uma consciência moral imatura e cruel, que, insuflada pelo sermão do clérigo, acusa-o de promover o pecado e corromper a religião. Sentindo que ultrajou definitivamente a majestade de Deus, o rapaz vê-se fazendo jus à pena máxima: a partida irremediável e definitiva para o inferno, lugar de torturas “intoleravelmente intensas” e “insuportavelmente extensas” (op.cit., p.142).

A dor vivida por Dedalus – tão real quanto viva é a imagem usada por Joyce – leva o jovem rapaz, findo o retiro, a encarar seus desejos como tentações a serem em tudo evitadas, o que o leva a quase exaurir o próprio corpo a fim de refrear-lhe os apetites pecaminosos. Esta atitude não revela outra coisa senão o surgimento de um generalizado horror de si mesmo, sentimento que não poucas vezes acometeu pessoas aparentemente muito equilibradas, aproximando-as da sensação esquizofrênica (gr. schizein: cindir, separar, e phren: espírito, ânimo) de estarem rachadas por dentro, laceradas.

Dá-se a esta sensação o nome de sofrimento moral, mas sua designação precisa é mesmo culpa. Esta aí, quando irrompe logo nas primeiras idades, obriga o sujeito a retorcer-se tão e tanto, que seu esgarçar é inevitável e pode conduzi-lo aos confins da experiência humana, lá onde a arte surge como uma forma singular de refrear a loucura do espírito.

Mas seria a culpa, então, a parteira do artista? Se descomplicarmos a questão, é isto o que nos deixará entrever Joyce. Mas é preciso dizer que a culpa, quando irrompe precocemente, faz mais do que apresentar ao jovem o lado moral do sofrimento. O tormento íntimo causado pelo sentimento de culpa não apenas leva o jovem a angustiar-se prematuramente, mas, com efeito, também o obriga a lidar muito cedo com as consequências desta angústia, pressão que o aproxima perigosamente da experiência radical da loucura, conduzindo-o à vivência da desrazão e dotando-o de uma característica comum aos loucos: a permeabilidade.

É de fato aí, neste lugar de passagem, que arte e loucura, não sendo em si a mesma coisa, confundem-se, levando este jovem a uma relação tão direta com o mundo que seus sentimentos em relação a ele e a si mesmo oscilam da piedade ao terror, marcando assim um compasso diferente dos demais. Esta ambivalência é um dos efeitos da permeabilidade aludida, e é causa da necessidade muito cedo observada neste jovem de ter que construir uma imitatio do mundo capaz de acolher não somente a sua dor, mas os sentimentos que ele aprende a colorir para compensá-la. Porque originalmente o mundo não foi capaz de acolhê-lo, este jovem – já podemos chamá-lo artista – precisará suplementar a realidade a fim de nela assegurar um lugar. É esta a razão da imitatio, deste suplemento [1] que, mais tarde, ele aprenderá a chamar de arte.

[NOTA 1: É importante frisarmos o sentido exato da palavra “suplemento”. Não é nem de longe o mesmo que “complemento”. Se complementar é juntar uma parte à(s) outra(s) a fim de constituir um todo, suplementar é acrescentar algo a um todo já constituído a fim de ampliá-lo, esclarecê-lo ou aperfeiçoá-lo. De modo que a arte não complementa ou completa o mundo, mas o suplementa.]

No caso da loucura, essa mediação imitativa, praticamente inexistente, é de forma muito precária realizada pelas construções delirantes, que são comumente indecifráveis e por isso incapazes de reivindicar qualquer função suplementar. Todavia, os delírios são importantíssimos porque oferecem ao louco a oportunidade de constituir um tempo próprio [2].

[NOTA 2: Constituir um tempo próprio é a base mesma da experiência da subjetividade, posto que reconhecer-se como sujeito implica a capacidade de preservar, sob a multiplicidade dos eventos cotidianos, uma única e mesma identidade fundamental. O louco, apesar da fragmentação que caracteriza a experiência delirante, nem por isso deixa de ordenar seus delírios segundo uma lógica. E ainda que essa lógica seja em sua essência incomunicável, constatá-la é já encerrar o louco dentro da vivência temporal – encerrá-lo, portanto, dentro da possibilidade de existir como sujeito.]

Por tudo isso, podemos afirmar que, apesar das diferenças, o fluxo temporal que caracteriza o artista no momento do arrebatamento estético e aquele que percorre o louco no surto delirante, ambos definem-se por uma experiência de permeabilidade entre o já representado e o ainda irrepresentável na experiência cotidiana. Em outros termos, arte e loucura são possíveis somente porque o tempo que as produz abre-se a uma enorme pluralidade de experiências e possibilidades, fator este que nos impede de enquadrá-lo, este tempo, numa ordem cronológica ou linear.

E, importante: tampouco o podemos definir, a este tempo, como psicológico. A razão disto é que essa vivência temporal, para ser permeável, precisa necessariamente se fragmentar: loucura e arte são tentativas de reintegrar esses fragmentos, produzindo nesse esforço não um Eu capaz de reconhecer fronteiras fixas entre fantasia e realidade, mas um Eu que, marcado pela fragmentação, e por isso tendente a estranhar-se a si mesmo, encontra enorme dificuldade (maior no louco, menor no artista) em definir o grau de interioridade ou exterioridade de ideias e sentimentos. É por isso que sua subjetividade não chega a ser interior ou psicológica, como o são aquelas que, reguladas por uma norma universalmente válida, compõem o conjunto dos sujeitos normais. Pois se estes organizam sua subjetividade a partir de modelos predeterminados, aqueles outros, os anormais, somente definem e organizam uma subjetividade quando de algum modo – próprio – conseguem expressar suas indeterminações essenciais.

Daí nos autorizarmos a dizer que o verdadeiro artista e o louco só constituem uma psykhé graças à mediação da sua arte e da sua loucura. De modo que o artista e o louco possuem psicologias artesanais. Possuindo uma organização anímica diferenciada, de tempos em tempos produzem uma experiência única: a loucura delira, a arte obra.

Mas voltemos ao romance de Joyce, procurando entender a partir dele o que significa unir-se ao mundo através de emoções tão díspares como o terror e a piedade [3].

[NOTA 3: Emoções que, segundo Aristóteles em sua "Poética", a tragédia deve despertar em seus espectadores a fim de purificá-los do excesso irracional que estes afetos, quando vividos na realidade, naturalmente despertam na alma humana. Purificada, pode a alma, então, usar a razão para transpor intelectualmente o drama visto no teatro, transformando-o em conhecimento]

É o próprio Dedalus quem nos oferece aqui uma pista, ao pretender, anos mais tarde – e partindo da tradição intelectual aristotélico-tomista na qual foi educado –, definir estes sentimentos a fim de sobre eles assentar uma teoria própria da experiência estética. Chega a formular, assim, as seguintes proposições:

"A piedade é o sentimento que detém a marcha do espírito na presença de tudo que é grave e constante nos sofrimentos humanos e o une ao sofredor humano. O terror é o sentimento que detém a marcha do espírito na presença de tudo que é grave e constante nos sofrimentos humanos e o une à causa secreta" (JOYCE, p.216).

De fato, quando o sentimento de culpa irrompe, este terror torna-se tão presente e real que mesmo a ideia de uma instância de infinita consternação e penas eternas, malgrado o pavor que inspira, oferece à alma a possibilidade ímpar de elaborar sua experiência fundamental, a “causa secreta” de todos os seus terrores e piedades possíveis. Uma experiência que, por ser raiz e fundamento, é inacessível à memória consciente, e, exatamente por isso, essa expressão usada por Dedalus, “causa secreta”, define bem a forma que tal experiência assume em nossas vidas: a de um determinante absoluto e insabido, e por isso “grave e constante”. 

Mas eis o mais formidável: se James Joyce faz seu personagem – o artista – dizer que é o sentimento do terror que liga o humano àquilo que o causa, então, conclusão lógica, ele propõe a ideia de que esta causa é terrificante, o que significa, substituindo a linguagem literária pela terminologia psicanalítica, que ela é traumática. Podemos consequentemente inferir, a partir das palavras do autor, que o espírito humano é – como já a psicanálise havia proposto – estruturado por um trauma. Mais ainda: Joyce subentende, por colocar a ideia na boca e na vida do artista, que a arte é uma forma de dizer e presentificar essa experiência.

Proposta a ligação entre terror e trauma (calcada na afinidade estrutural entre literatura e psicologia), podemos agora articular essa ideia de “causa secreta” do espírito àquela outra teorizada por Sigmund Freud: a do desamparo inicial do bebê frente às suas necessidades de alimentação e segurança.

O objetivo deste artigo é fazer com que o sofrimento de Stephen Dedalus funcione como exemplo das dores morais que podem conduzir alguém à arte, entendendo com isso, é claro, que ninguém se torna artista impunemente. Procura-se criar aqui um jogo de espelhos entre ficção e realidade, um vaivém de sombra e luz capaz de revelar, como no poema de Drummond, a pedra no caminho. Aliás, a pedra do poeta oferece excelente analogia para pensarmos esse traumatismo inicial. Interpretando livremente o poema, percebemos que a pedra necessita da insistência dos versos para ser notada como parte de todo e qualquer caminho. Reparemos que também ele, o trauma, é pedra e é caminho; também ele precisa repetir-se ao longo da vida para que sua origem imemorial possa ser, de alguma forma, subjetivada ou temporalizada. É como diz outro poeta maior, João Cabral de Melo Neto, que, ligando à concreção o sentido de sua arte, convoca-nos a “aprender da pedra, frequentá-la”.

Mas não esqueçamos Freud. Segundo o fundador da psicanálise, “o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte originária de todos os motivos morais” (FREUD, 1895/2003, p.196). Em outras palavras, a maneira como o bebê é atendido em seu completo desamparo inicial (maneira que se revela na disposição afetiva dos cuidadores) determina um conjunto de marcas psíquicas que funcionam como referência inconsciente para o estabelecimento de um estado interno de maior ou menor percepção deste desamparo. Quanto maior sua percepção, maior a produção de fantasias e o aparecimento de lembranças que terão como tema o abandono. Em situações de neurose explícita, essas fantasias e lembranças acompanham-se de intenso colorido afetivo, determinando a existência de um forte sentimento de abandono.

Neste caso, e considerando a analogia desenvolvida neste artigo, parece-nos legítima a tentativa de desentranhar do romance de Joyce alguns elementos que nos permitam pensar uma diferença (muito esquemática, é claro) entre a presença desta angústia no artista e no não-artista. Assim, vamos supor que no não-artista o sentimento de abandono tende a gerar mais ressentimento que culpa, enquanto no artista tende a produzir mais culpa que ressentimento. Bem, culpar-se em vez de culpar o outro já demonstraria uma primeira postura autônoma, sem a qual não haveria arte possível. Com efeito, esta oscilação que aproxima o sujeito da culpa é já um artifício, uma forma arcaica, artesanal e eficaz de minimizar os efeitos dolorosos da posição passiva que a criança assume frente ao abandono, seja ele real (caso mais grave) ou fantasiado. Transferindo para si a responsabilidade pelo abandono, e lidando sozinha com a dor do desamparo, a criança sofre, acabrunha-se, isola-se; todavia, cresce longe da necessidade de culpar os outros para sentir-se viva, abrindo-se para ela, assim, a chance de viver e agir um tanto mais ativa e autonomamente, ainda que em grande sofrimento.

Por outro lado, pode ser que a inscrição psíquica do abandono sequer aconteça, caso em que a criança não chega a se diferenciar daquela mãe que, em tudo invasiva, esmaga o psiquismo da criança com sua presença: é a origem de muitos estados psicológicos graves.

Mas há ainda um terceiro caso, representado pela presença equilibrada dos cuidadores. Nessas condições, a sensação de abandono ganha uma tonalidade afetiva branda, fazendo com que o desamparo inicial subsista no psiquismo apenas como ideia vaga do que seja esse trauma. Esta terceira situação, que é por excelência a do não-artista, é considerada a mais natural e menos sofrida, o que não impede que também nela a arte se faça presente como meio de expressão; contudo, já não será um impulso primordial para a subjetivação, mas uma vontade (ou necessidade narcísica) mais ou menos legítima de obter reconhecimento.

O ponto principal em tudo isto, aquele que justifica a afirmação de Freud citada acima, é a constatação de que, independentemente do tipo psíquico sob análise, a qualidade de amor/ódio que acompanha o movimento de aceitação/negação dessas forças afetivas é o que determinará, em última instância, a maneira pela qual o sujeito sentirá o bem e o mal ou se postará diante das convenções (eis aí os “motivos morais” dos quais o desamparo inicial é a fonte). Nascido do abandono e da culpa, o artista é aquele que sempre vê como insuficientes os contratos sociais e a realidade moral, tendo por isso de suplementá-los através da arte e ao longo da vida.

Mas pode haver ainda outra dificuldade. O medo de reviver esse traumatismo inicial pode acarretar, no artista, crises de angústia tão intensas quanto insuficientes podem ser os seus esforços de suplementação da realidade. E se acontece dele ter de viver sistematicamente essas crises, das duas, uma: ou vê sua arte sendo acolhida como parte integrante do mundo, fato que pode compensar seu medo do abandono, ou não suporta as crises e, independentemente da arte que ainda possa produzir, enlouquece.

Podemos considerar, portanto, que a alegoria do inferno no romance de Joyce é não apenas uma alusão a este enorme medo de reviver o abandono, como também é o modo pelo qual o autor, através da arte literária, ensina-nos algo sobre a possibilidade de ligar a constância e a intensidade deste temor às grandes vocações artísticas.

Com efeito, o quinto e último capítulo do romance confirma essas reflexões, mostrando que o medo de Dedalus não se prende a um objeto em particular, mas é índice da presença constante do que Stephen designa como “causa secreta” do espírito – causa terrível, recordemos – e que agora já podemos entender como a “fonte originária de todos os [seus] motivos morais”.

Evidenciando essa capacidade de deslocamento e permanência do medo, vemos neste último capítulo que apesar de o rapaz realmente perder o receio de ser abandonado por Deus, seu medo apenas muda de figura ou objeto, recaindo sobre uma jovem que durante anos foi alvo de sua inibida contemplação amorosa. Pois ele agora terá de lidar com a percepção de que novamente o Amor o desdenha: também a moça, portanto, abandona-o. Sua reação a esta segunda crise de medo – crise menos aguda, posto que já mediada pelas primeiras manifestações poéticas – consiste em manter-se indiferente à indiferença com que supostamente é tratado, tentando assim dominar o impulso “grave e constante” que, para além de Deus e da moça, termina por levá-lo a querer distanciar-se de todos os ambientes familiares. Diz ele:

"Não servirei mais àquilo em que não acredito mais, quer isso se chame minha família, minha terra natal ou minha Igreja; e procurarei me expressar por meio de uma certa forma de vida ou de arte tão livremente quanto possa e tão totalmente quanto possa, usando em minha defesa as únicas armas que me permito usar: o silêncio, o exílio e a astúcia" (JOYCE, 1916, p.259,260).

Por que falar em armas de defesa? Defender-se de quê? Da sua família, da sua terra natal e da sua igreja? Ou da impressão de que o lar, a pátria e a igreja, não podendo aceitar ou compreender seus sentimentos, abandonam-no? Pois é esta constante reedição do desamparo que o faz sofrer de forma velada, cultivando em si a esperança inesgotável de poder construir uma vida e uma arte que enfim possam dar a ele o que os outros não puderam: acolhimento. É como chega a dizer ao amigo confidente, Cranly, que o pressionava a reconhecer algumas fragilidades:

"Você me fez confessar os medos que tenho. Mas vou lhe dizer também aquilo que não temo. Não temo estar só ou ser rejeitado por um outro ou abandonar o que quer que eu tenha que abandonar (op.cit.,260)"

O artista, ainda rapaz, nega temer o desamparo. Mas este é mais um exemplo de que para nos livrarmos do inferno que é não sermos amados como desejaríamos, é necessário não apenas expressar nossos temores, mas nos apropriarmos verdadeiramente deles. É o que Stephen Dedalus ainda não pode fazer, mas é o que James Joyce faz quando cria Stephen, e é o que fazemos todos nós quando lemos os grandes escritores.

Para esta tarefa de superação dos próprios e coletivos fantasmas, forçoso é convocar a arte, ainda que nenhum talento artístico se apresente de antemão. Como se vê em Joyce, através de seu protagonista, a arte se desenvolve naqueles que não perderam tempo culpando os outros pelas suas dores, mas se responsabilizaram. Ainda que alto, pagaram o preço. De modo que este breve artigo conclui-se afirmando que se os infernos são matéria prima para o universo humano, eles o são na mesma medida em que a arte, raiz cravada neles, é o refazer interminável do retrato do artista.

Referências bibliográficas essenciais:

FREUD, Sigmund (1895). Projeto de uma psicologia - obras isoladas de Freud. Trad. Osmyr Faria Gabbi Junior. 1ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 2003.

JOYCE, James (1916). Um Retrato do Artista Quando Jovem. Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro. 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

Nota: a origem histórico-filosófica dos discursos sobre a alma (psicologias)

De acordo com o ilustre filólogo alemão Wilamowitz-Moellendorff, "Heráclito foi o primeiro a pensar seriamente, ou mesmo a ter algo a dizer sobre a alma do homem". 

Segundo Karl Reinhardt, outro grande erudito alemão, em Heráclito de Éfeso podemos encontrar "pela primeira vez uma psicologia digna desse nome". 

Também Bruno Snell, alemão ainda e helenista renomado, tratando do aparecimento, em fins do período arcaico grego, da noção de "profundidade" ou de uma alma que engloba e excede o corpo por ser "profunda", diz que "foi Heráclito o primeiro a dar-nos essa concepção". 

Eric Voegelin, filósofo anglo-germânico, reconhece, neste mesmo sentido, que "Heráclito foi o primeiro pensador a explorar a alma em profundidade - identificando sua tensão, sua dinâmica, sua estrutura". 

Charles H. Kahn, respeitado especialista norte-americano em filosofia grega e antiga, afirma, por sua vez (no que é seguido pelos especialistas Thomas M. Robinson, canadense, e Giovanni Reale, italiano), que a concepção de alma desentranhada dos fragmentos do efésio é, de fato, original.

Retomando e desenvolvendo o trabalho dos estudiosos alemães supracitados, Kahn nos informa que Heráclito realmente conseguiu, de forma inédita, relacionar a noção homérica de sopro ou alento vital às noções vigentes e desmembradas de 'inteligência' (dos pitagóricos), de vida afetiva (dos poetas líricos) e de mundo físico (dos jônicos), aprofundando e unificando essas noções à luz de uma intuição psicológica definitiva: a da existência, em cada sujeito humano de carne e osso, de uma estrutura oculta que mimetiza e responde, "profunda" ou inconscientemente, à estrutura invisível e omniabarcante da razão (lógos) universal. À esta estrutura íntima, recôndita, de caráter pessoal intransferível, Heráclito chamou de alma (psykhé). Com isso, inaugurou a possibilidade de cada ser humano compreender sua interioridade como reflexo particularizado, ou expressão em menor escala, das claridades e mistérios da ordem (Kósmos) universal.

Essa intuição, de fato, transformou o entendimento da alma humana.

Antes de Heráclito, o termo grego 'psykhé', denotando apenas um princípio biológico ou emocional sem muita importância, não era encontrado nem nas descrições que se faziam da phísis (mundo físico), nem naquelas outras que buscavam investigar o mundo ético-político ou racional do anthropos (ser humano). Esses mundos, sentidos como inteiramente dependentes dos deuses e/ou das leis da Cidade-Estado, não eram vistos, com efeito, como possíveis expressões do subjetivo. A complexa experiência de perceber-se a si mesmo como um ser biograficamente relevante, consciente e responsável (experiência de ser uma subjetividade), era algo desconhecido no período arcaico da cultura grega. Mas porque Heráclito pôde pensar essa alma não como um princípio impessoal de vida, mas como sendo ela mesma esse centro unificador e irradiador de tensões pessoais "profundas" e comuns a todos, movimentos de alcance ético, como o Teatro, e de aprimoramento intelectual, como a Filosofia, puderam surgir e se articular. Com efeito, foi a partir daí que homens como Sófocles e Sócrates puderam fazer da alma humana, respectivamente, um palco para infindáveis dramas de consciência e uma escada para esferas mais altas de vida interior.

Não fosse a visão grega em geral e a de Heráclito em particular, obras aparentemente heterogêneas e tão fecundas quanto as de Edmund Husserl e Sigmund Freud, escritas 2.400 anos depois, não poderiam ter sido sequer imaginadas. 

Exemplos (há muitos): tanto a concepção de Husserl relativa à correlação entre Ego transcendental e Mundo-da-vida (correlação que constituiria a própria possibilidade de haver uma experiência humana sobre a face da terra) quanto aquela outra que autorizou Freud a psicanalisar a figura histórica de Moisés, propondo, a partir dela e de sua experiência clínica, uma interpretação do fenômeno religioso e do monoteísmo, enraízam-se em Heráclito, que foi, como se disse, o primeiro a ver e a falar de uma correspondência entre a estrutura da alma individual e as estruturas tanto da realidade material quanto da cultural (ou 'interssubjetiva'). 

Desde então, um mundo de pensadores - a começar por Platão - pôde ver ou constatar a mesma analogia, trabalhando para que essa relação tensa e de mútua ressonância entre mundo interno e mundo externo, ou entre ordem natural, ordem subjetiva e ordem cultural (e, numa outra chave, individual e social), fosse evidente para nós. 

Cit.: "Jamais seria possível descobrir os limites da alma, ainda que todos os caminhos fossem percorridos; tão profunda é a sua medida" (Heráclito de Éfeso, fragmento 45).

Origem mito'stórica do cuidado da alma (alumbramento)

O Uno educou o Múltiplo, o Ancião educou a Criança, Sócrates educou Platão. 
Isto aconteceu no Sempiterno, antes da Frivolidade do Tempo emprenhar, 
inaugurando invernos, tempos vis, índoles más. 
Foi antes do primeiro inverno 
que ensinou Sócrates o seu último mistério. 
Retirou-se depois para o Imo grego de Platão, 
para o insabido fundo de seu coração ático. 
Lá hibernou, arquetípico, paradigmático.

Mil vidas, idas e vindas após, com a memória lavada pelas mortes, 
sentiu Platão, o Redivivo, brotar daquele Imo, feito imemorial,
um sussurro, alto cochicho, que o invocava, manso mas cabal. 

Intrigadíssimo, mas a ignorar deste sopro a origem significante, 
Platão, o Principiante, sem saber agora o que outrora mais sabia,
disse: "Sócrates?..." , e escutou, do Imo: "Deixe a mente vazia".

Então, sob o influxo da ordem, e ao som do nome sacro,
uma a uma das mil vidas foi regressando à vestal memória,
e Platão viu-se Múltiplo, dos seus Eus o último: sua palmatória.
Castigado pelas reminiscências (ó tempo perdido),
viu o Aluno que o Mestre poderia libertá-lo
do restante esquecimento, e tarde,
mas sem delongamentos, arrependido,
fez do Uno a sua única deidade.

Assim, primeira vez em mil vidas,
reviu Platão as verdades aprendidas,
e nelas reconheceu o Bem de todos - não só o seu.
Decidiu, pois, ante as trevas mundanas, mostrar as lições que reaprendeu.
Mas tais luzes, percebeu, não poderia exibi-las nuas.
Vestidas foram, deste modo, com prudência, em ricas alegorias, belas figuras,
tornando amenas as mil labaredas que, descuidadas, arderiam até a secura.

Codificada na letra platônica, a luminescência socrática despertou, dos áticos,
a grã inteligência, resgatando-a da vil, vã discurseria, revelando,
na Luz que dá à luz, a Arte ímpar da dual coreografia: os Diálogos.
Que das palavras às Ideias e destas à Sabedoria, chamou-se, com amor, filosofia.
De modo que o sol, real alegoria, já luzia mais no Espírito
do que em Natura ou nas Cidades, e a Dialética, a nova arte, logrou reconciliar
o Uno e a Realidade.

Porém, viver sob as luzes da una verdade exigia, de todos, mais:
que se dedicassem, sem descontinuação, à escalada e à escavação
de si mesmos. Não sozinhos, mas nas pegadas do Ancião.
Somente assim, com suores e esforços, mudariam a paisagem interior,
descerrando-a para além da dor, e o imenso céu e a inteira terra,
agora dentro mais do que fora, fossem vistos como o Fundamento:
Memória que a tudo encerra.

Descobertas as Alturas, pr'onde tendem à vera, e as Profundezas, donde vêm ébrios,
ouviriam dentro de si o amável comando, o infindável eco: seja sábio!... 
Então, diante dos primeiros céus e abismos edificados, disse Platão, manso, ajuizado:
"é preciso que cada um, agora apto a reconhecer a Beleza, doravante pronuncie, incandescido de alegria e com a vida tesa, já salva, as palavras imortais, do mais íntimo Imo fundantes: Minha Alma!"

Nunca mais se poderia descuidar dela, desta mansa, nova e imperecível sina: a Imortalidade
da alma: que agora será sempre e desconhecerá mortes.
Platão ensina, pois, o que havia em si e jamais houve antes:
a sua e a socrática sorte.
Imbuída de sua missão, exortou Criança às suas crianças,
expondo a elas de sua ágrafa doutrina o coração pulsante:

Cuidem das suas almas e das almas uns dos outros, 
muito certos de que o despertar para a verdadeira vida 
só alcança os intelectos que se fazem herdeiros
do imortal Eros divino, da Penúria e da Abundância filho, 
e com ele convertem-se à busca do Bem e do Belo, 
mas também à da Una Verdade, comovidos pelo anelo 
de ofertar ao passado as suas lamúrias e ao futuro os seus lares.


Testemunhas do Destino!, combatam os desatinos da Frivolidade: 
o esquecimento, o mal, o saber de quem acha que sabe. 
Para bem-aventurarem-se em tal diligência, 
devotem-se vocês à contemplação das Essências, 
e ao Cuidado da Alma,
que dão ao Espírito Unidade 
e ao Corpo o que o salva.


Vão!, múltiplos de Sócrates, mostrar ao mundo, 
contra tudo e a todos no tempo, 
que o Uno fez de vocês almas fortes: 
seu mais claro e entranhado fundamento.

21 de janeiro de 2016

Eletromagnéticos, uni-vos!

A estimulação audiovisual diminui a voltagem das relações humanas, isto é, a diferença de potencial elétrico que instaura entre as pessoas correntes afetivas –, bem, num mundo como este, não tem jeito: para nos colocarmos frente aos outros, e compreendermos não o que dizem, mas o que de fato desejam, sentem e pensam, precisamos impor limites a tais virtualidades.

Receando cada vez mais manter essas correntes afetivas ligadas, a fim de evitar choques, os contemporâneos entregam-se sem reflexão às relações virtuais e à sua baixa voltagem  ou baixa realidade , assumindo aí posições que, por dispensar a prova do olho no olho, induzem as pessoas a falar e a se comprometer com mil e uma bobagens.

É um engano partir do pressuposto de que podemos, assim imediata ou virtualmente, fazer uma ideia adequada da vida alheia. Falamos como se soubéssemos muito bem o que vivemos nós mesmos, e este suposto saber nos habilitasse a julgar, de antemão ou em tempo real, as situações concretas enfrentadas por nossos semelhantes. Não. Talvez essa ilusão funcione no diálogo virtual com perfis virtuais, mas a verdade é que diante de um corpo humano vivo, que fala ou convive conosco, que nos interpela ou intima, que nos faz e desfaz favores, que sorri e nos irrita ao mesmo tempo, que eleva com sua presença a voltagem e a amperagem do relacionamento, a verdade é que diante dele quase nunca sabemos o lugar que nós mesmos vamos ocupando: se de pólo positivo frente ao negativo, quando doamos ao outro, ou se o contrário, quando recebemos dele; se de pólo positivo junto a outro positivo, quando tudo pode acontecer; ou se de negativo diante de outro negativo, onde nada acontece.

Diga-se o mesmo em relação a todas as polaridades humanas possíveis e seus inúmeros modos e combinações imagináveis: ativo-passivo, sujeito-objeto, amante-amado, experiente-inexperiente, amigo-rival, senhor-servo, algoz-vítima, agente-paciente, racional-emotivo, pessoal-impessoal, idoso-jovem, estranho-familiar, masculino-feminino, ou todas estas e ainda muitas outras polarizações em sucessões, graduações e simultaneidades tão ou mais complexas quanto as de uma molécula de ADN, e que nos escapam rumo à inconsciência, donde se conclui a dificuldade extraordinária de ainda ter, depois disso, de encontrar o lugar concreto do outro, para daí interpretar suas vivências com alguma destreza.

Se não nos guia um esforço biográfico de coerência e consciência, pautado por fins e valores claros, concretos, enraizados em estratos profundos e sadiamente inconscientes, não adianta: acabará sendo impossível saber o lugar que ocupamos todos neste mundo virtualizante, e o resultado será a desorientação geral. Isto porque a vida humana, queiramos ou não, é sempre um drama difícil de acompanhar: seus lugares se confundem, suas tramas se imbricam, suas conexões se escondem; emaranhando-se, embaralham o que já sabíamos com o que não sabemos, as antigas intensões com resistências novas, os valores virtualmente defendidos com os realmente assumidos, etc., gerando com isso mil opacidades e posições ambíguas, fragilidades que uma vida vivida em demasia no mundo virtual sente e padece sem dar-se muito conta disso, situação que a vai enfraquecendo através da perda gradual do que poderíamos chamar de seiva humana, isto é, contato demorado com os outros e seus valores.

Não se trata de abdicar das benesses do mundo virtual, mas de compreender que tal mundo não modificará a condição humana, que exige, do ser humano contemporâneo, agora mais do que nunca, um trabalho contínuo de auscultação e transparescência de si para si mesmo. Trabalho sem fim, sempre insuficiente, irrealizável sem a presença corporal dos outros, mas absolutamente necessário para avaliar situações complexas sem ingenuidades e com responsabilidade, sustentando diante da vida alguma dignidade, condição sem a qual não poderemos ser reconhecidos, ouvidos e vistos desde um centro ou posição clara. Se recusamos este trabalho, entregando-nos aos descentramentos da vida virtual, com o tempo nos desenraizamos ou nos virtualizamos, moléstia da qual a tagarelice é um dos sintomas mais evidentes.

Às vezes trágica, outras comicamente, expressa-se pela tagarelice uma incapacidade total de compreender e influenciar o que quer que seja. O tagarela é assim um exemplo deste sujeito desprovido de seiva, virtualizado, e por isso constantemente atropelado pelas circunstâncias. Quanto mais fala, menos autoridade tem sua voz. Porque não tem raízes suficientes, quanto mais age mais arrisca tombar. Não é à toa que o ramerrame cause tanto mal-estar em quem procura, ao contrário, enraizar-se ou situar-se antes de abrir a boca.

Pois para se colocar no lugar concreto do outro, a fim de realmente compreender o que deseja, sente e pensa, precisamos, antes e sempre, auscultar e escutar, procurando falar e responder desde o imo, único lugar onde é realmente possível um nexo compreensivo: é o famoso e já citado olho no olho. Dispensando esta âncora, estaremos todos à deriva e em rota de colisão uns com os outros.

Autoconhecimento?

Todo cuidado é pouco com o chamado autoconhecimento. Não somente porque, a rigor, sua posse é impossível, mas porque sua busca pode levar, às vezes inadvertidamente, ao rompimento de antigos e importantes laços.

Por outro lado, há de fato pessoas que nos parecem conhecer muito a si mesmas; pessoas capazes de narrar suas vidas com coerência e sensatez, descrevendo suas existências com um poderoso sentimento de que estão a dar conta de quem são. Essa capacidade de lançar sobre a própria vida um olhar que a estruture ou organize não é, contudo e rigorosamente falando, conhecimento, mas reconhecimento. Não é conhecer-se a si mesmo, mas reconhecer-se em si mesmo, o que é bem diferente. É saber-se passado. É biografar-se. É ter-se em segunda mão. É, enfim, uma grande virtude, e deveríamos respeitar seus limites. 

Porque um verdadeiro autoconhecimento exigiria mais do que saber contar histórias ou descrever ciclos de vida: implicaria a decifração e a conjunção dos ritmos, trajetórias, sentidos e proporções que a alma perfaz e cria ao mover-se nos céus inconscientes, o que daria a alguém a capacidade de prever e modificar todas as suas ações, reações, ideias, emoções, volições, etc.

Se um tal conhecimento de si mesmo fosse possível, ele geraria tamanha inteligência da condição humana que, diante de tal sapiência, as dores do mundo estariam vencidas e o sábio que as tivesse subjugado seria uma espécie de divindade. 

Quem vai em busca de autoconhecimento talvez não saiba que, lá no fundo, pode estar trocando um comum e comedido complexo neurótico por uma neurose pra lá de complexa.

Algo

Quase nunca sabemos a fundo do que falamos ao falarmos de nós mesmos ou das relações que mantemos. Todavia, sempre que abrimos a boca, não importa por qual motivo ou com qual intenção, algo do que real e profundamente sabemos sobre nós mesmos e sobre essas relações; algo a respeito do que mais importa; algo sobre o que estamos a fazer neste mundo; algo ligado às nossas mais profundas simpatias e aversões; algo assim circula, movimenta-se, ruma numa direção perfazendo um sentido.

Este sentido chama-se, tradicionalmente, alma ou espírito. Não se chama eu. De modo que ao nos identificarmos sem mais com este pronome reto, deixamos cair, esquecido, dia após dia, algo deste algo que nos constitui. 

Isso significa que as nossas almas são feitas de algo que, ignorado pelo eu, nos escapa o tempo todo. Assim, algo deste algo precisa ser incessantemente aprendido ou recordado, a fim de que algo se manifeste no horizonte da consciência como destino

Ainda que não saibamos, é para este horizonte que as nossas questões mais prementes, como súplicas enderereçadas a Algo, dirigem-se. São estas súplicas, e não os pronomes do caso reto, que em seus consultórios os psicoterapeutas buscam escutar.

20 de janeiro de 2016

Contrapesos

Assim como pesos precisam de contrapesos - ou pesos contrapostos - para que se possa garantir com eles alguma estabilidade aos movimentos circulares de um rotor, as dores humanas precisam igualmente de contradores - que são outras tantas dores - a fim de assegurar com elas alguma estabilidade às dinâmicas da alma, mantendo-a deste modo em condições de contrastar, discernir e elaborar os dramas de que padece. Em outras palavras, expressões como "só me faltava essa" ou "quanto mais eu rezo mais assombração aparece" são muitas vezes o sinal não de um problema a mais, simplesmente, mas da chegada do remédio amargo. O desespero humano nada tem a ver, portanto, com o acúmulo de problemas, mas com a intolerância de um único problema a todos os outros.

Vida adulta

A finalidade da vida adulta não é adequar as pessoas ao realismo da vida em sociedade, mas fazer com que homens e mulheres, diante de outros homens e mulheres, percebam em quê, e como, para o bem e para o mal, já são alguém de verdade. A maturidade, portanto, não reflete uma adequação social, mas deve, antes, refletir o oposto: um discernimento quanto a tudo aquilo que nos distingue dos outros, até mesmo dos que nos são mais afins.

Sem este senso da própria singularidade, como reconhecer a singularidade do outro ou seu potencial de alcançá-la? Sem o senso da própria singularidade e o seu corolário, que é o reconhecimento da alheia, como não nos transformarmos em vaquinhas de presépio ante familiares e amigos, ou em números submetidos à tirania da quantidade? Sem essas qualidades, como sentir a alegria e o espanto de ainda assim sermos todos semelhantes?


Somos todos semelhantes e diferentes não somente genética ou biologicamente, mas essencialmente, ontologicamente, radicalmente 
 por que não dizer: dramaticamente. À percepção inicial e sensorial da semelhança ontológica deve seguir-se um processo lento de diferenciação ou individuação, em que a percepção vai se tornando cada vez mais capaz de apreender, no âmago da alma, a diferença essencial  singularidade  que a distingue de todas as demais. Em suma, os seres humanos são (mas também devem tornar-se) sínteses únicas de inumeráveis séries de semelhanças e diferenças constitutivas. É sobre tais séries que se fundam e se formam os afetos capitais do amor e do ódio.


Isso nos faz recordar que a vida humana não existe a não ser simpática ou antipaticamente, isto é, diante de pessoas concretas que nos afetam de maneira concreta em situações concretas. A maturidade, assim, diz respeito ao desenvolvimento da esfera afetiva, que somente se dá em âmbito pessoal ou particular, e não no social ou público, onde ela, a maturidade, pode ser apenas simulada, jamais desenvolvida ou vivida. A vida adulta, por isso, exige que as pessoas se assumam como são e se responsabilizem por isso: sempre mais.


É exatamente ela, a responsabilidade 
 ou a capacidade de responder por quem se é  –, o que depura, compromete, amadurece. 


Considerando, agora, que o que há de mais íntimo em alguém só existe em conexão com o que há de mais íntimo em outrem, e, também, que esta conexão é o que chamamos de intimidade, concluímos que em nossas almas esta só brota, fecundante, fértil, real, quando assumimos consciência da importância fundamental da virtude enunciada acima, a responsabilidade; que, por ligar-se intimamente aos outros, só deste modo emerge em nós, diferenciando-nos.


Eis o fundamento da verdadeira moral ou da vida interior, que, ao debruçar-se sobre o mundo, transforma-se em inteligência, que é, em seu sentido mais nobre e filosófico, a capacidade de apreender, nas pessoas, coisas e circunstâncias, aquilo que lhes é superlativamente interior: o íntimo, a essência.


Vida adulta, assim, é aquilo que nos reúne íntima, responsável e intelectualmente uns aos outros, conscientizando-nos do cuidado que devemos à alma que temos e à alma que, juntos, mantemos. Quanto maior o grau de responsabilidade, maior o enraizamento na realidade íntima. Quanto mais enraizados nela – na realidade concreta da intimidade –, mais inaptos estaremos para a vida de servidão voluntária idealizada nas engenharias sociais.


A vida feliz, por fim, decorre da conjunção, promovida pela verdadeira educação, desses quatro fatores: singularidade, responsabilidade, intimidade, inteligência. Excluídos deste círculo virtuoso, somente nos sentiremos 'felizes' se, imersos em prazeres sensoriais, pudermos esquecer que eles se extinguem com a idade, dores e doenças. Incorporados ao círculo, até o sofrimento nos fará, mesmo com dificuldades, sorrir. Há algo mais valioso? Quantos prazeres fáceis valem esta difícil bem-aventurança?


As repostas possíveis, aqui, vão do adulto imaturo e caprichoso, avesso a compromissos que o revelem, ao homem e à mulher que, pelas razões expostas acima, já não temem envelhecer, porque já sabem quem e o que são.

19 de janeiro de 2016

Sobre a contundência da tarefa psicológica de Nietzsche (por Stefan Zweig)

(...) a análise psicológica não é apenas uma questão de talento; é sobretudo uma questão de carácter, é algo que depende da coragem de "tudo pensar", pensar "tudo o que se sabe", é (...) união de uma profunda capacidade de conhecer com a energia viril e primordial da vontade de conhecer. Ao verdadeiro psicólogo, nesta acepção, não basta ser capaz de ver; aquilo que consegue ver tem que ser também objecto do seu querer ver. Ou seja, não pode, por via de qualquer sentimentalismo pessoal, por negligência, por receios ou vergonhas do seu foro privado, ignorar ou não aprofundar este ou aquele aspecto do seu objecto; não pode deixar-se adormecer ou entorpecer por escrúpulos ou sentimentos. No espírito daqueles que desempenham o papel de avaliadores e guardiães dos valores da alma humana, daqueles "cuja tarefa é manterem-se alerta", não pode haver conciliação, não pode haver temor, não pode haver compaixão, nenhuma das fraquezas (...) do homem burguês, do homem mediano. A eles, que são guerreiros e conquistadores do espírito, não lhes é permitido deixar benevolentemente escapar qualquer verdade que eventualmente surpreendam nas audaciosas patrulhas que levam a cabo. Nas coisas do conhecimento, a "cegueira não é erro, é cobardia", a benevolência é um crime, porque quem não quer ofender, quem não quer magoar, quem não quer pôr a nu por medo dos gritos de pudor que possa ouvir, quem teme a fealdade da nudez, esse não conseguirá nunca descobrir os segredos últimos. A verdade que não for levada ao extremo, a veracidade sem radicalidade não tem rigorosamente nenhum valor ético. Daí também a dureza com que Nietzsche trata todos os que por preguiça, ou por cobardia do pensamento, esquecem a obrigação sagrada de pensar com decisão e destemor (...) "Quanta verdade pode o homem suportar?" Foi esta a pergunta do audacioso pensador ao longo de toda uma vida (...)

[entre aspas, citações de Nietzsche]


Em "Combate com o demónio: Hölderlin, Kleist, Nietzsche", de Stefan Zweig (tradução portuguesa de José Miranda Justo). Editora Antígona, 2004.

18 de janeiro de 2016

Sequoias avoengas

Ninguém escapa à necessidade, cedo ou tarde emergente, de assumir-se para além de si mesmo. Porquanto o 'eu' nosso de cada dia é, como observava Freud, bem menos senhor de si do que a alma que o hospeda. 

Essa alma assemelha-se a uma sequoia avoenga, enraizada numa região psíquica insabida, mítica, ubíqua. Nosso 'eu', por outro lado, não passa, na comparação, de um arbusto miúdo e falho, dentro do qual a nossa consciência se agacha, aterrorizada, espiando de lá os abismos e as alturas transcendentes.


A alma humana é uma potência itinerante: vai de além em além transcendendo a si mesma a fim de ser em outros seres, reconhecendo-se neles e com eles cultivando-se. Ao desdobrar-se assim, a alma desenvolve, sobre as circunstâncias da vida, uma autoridade ou uma soberania que o 'eu', controlador nato, até tenta usurpar, mas que jamais consegue, por si, conquistar e manter.


De maneira que há uma diferença não somente tópica, mas sobretudo dinâmica entre a alma que somos e este 'eu' que imaginamos ser e conhecer. Esta diferença é um outro modo de considerar aquela realidade sui generis que Freud chamou de 'Inconsciente'. É por aí que nos escapa o que seguimos sem saber.


O inconsciente, espécie de alfândega clandestina, efeito do terror que sente o 'eu' ao lidar com amplitudes maiores que a dele, é o mercado negro da personalidade. Neste mercado vigora um comércio secreto e ancestral, onde circulam antepassados e demais presenças mágicas, espectros que exploram nossas forças e dominam nossas vidas. O problema é que tais espectros são o que nós mesmos somos: demônios que desfazem o que fazemos, roubam o que ganhamos e gozam quando sofremos.


Daí a importância central de nos mantermos abertos à multiplicidade da alma, pois ainda que tal abertura nos dispa e ameace, é ela a única atitude que pode ajudar a 'legalizar o mercado', habituando-nos ao seu cuidado e convívio. Cuidando de suas regras e transações, cuidamos de nós mesmos e do próximo: convertemos o demônio. 


Há uma só lei, aqui: dar ao arbusto o que é do arbusto e à sequoia a coragem de assumi-la. Nada aquém disto.

Tensões e estruturas

A fim de sustentar a carga necessária, as edificações dependem de uma calculada correspondência ou proporção entre suas partes componentes. É a sua estrutura, que distribui e equilibra as tensões, gerando estabilidade. Não é diferente com a alma humana. Um senso das proporções, ou de medida, lhe é fundamental. Quando não se ocupa com a contínua formação deste sentido interior de justiça - ou melhor: de justeza, de correção, de conformidade -, a alma se desequilibra, 'perde a mão' e o lugar. Pegando muito leve aqui, pesado demais ali, faz sua vida oscilar tanto que, se alguém não intervém com decisão, termina por desestruturar-se inteira, desmoronando sobre as relações que precisaria sustentar. Há mesmo pessoas que, já escombros, enchem de entulho a vida dos outros. Mas nada percebem: é que ainda aí lhes falta o senso... É a tal gente 'sem noção', em grau superlativo.

Heteroestima

Diga-me como e a quem estima e lhe direi se essa tal autoestima é uma possibilidade pra você. A estima ou apreço implica primeira e necessariamente o outro e não a gente mesmo. É somente o outro quem pode apresentá-la a nós, e é somente com ele, para ele e através dele que podemos exercê-la ou exercitá-la convenientemente. 

Logo, ninguém poderá estimar a si mesmo se não for capaz de, antes e genuinamente, dedicar-se a um outro. Mas quem seria este outro? Bem, se o outro fosse aquele que concorda conosco e nos faz as vontades, não seria outro de fato, mas um nosso disfarce, uma extensão de nós mesmos, uma farsa.


O verdadeiro outro, ao contrário, é aquele que, quanto mais próximo, mais se afirma e precisa afirmar-se como outro, afirmando, sem máscaras e não raras vezes com alguma contundência, outras opiniões, outras posições, outro gosto, outro querer. Portanto, estimarmos ou termos apreço pelo outro implica aprendermos a conviver e a dialogar com tais divergências, assumindo-as também em nós mesmos, o que implica a possibilidade do autoquestionamento e da autocrítica, isto é, o reconhecimento de que no íntimo de cada um de nós pensa, sente e age um outro autônomo, a quem devemos estimar.


Quando conseguimos sustentar tal convivência e diálogo, percebemos que este outro que aprendemos a estimar fora e dentro de nós começa, por sua vez, a também nos ter apreço. A tal autoestima é isto e somente isto, e, portanto, não pode existir a não ser na forma de uma larga e cultivada heteroestima.

Inconsciente inconsciente

A descoberta do Dr. Freud de que somos em alta medida determinados por um inconsciente dinâmico e sistemático permanece, na esfera sócio-cultural ou histórico-política, sem efeito. Na esfera clínica ou interpessoal, onde sob certas condições é possível experienciá-lo, o inconsciente, pouco a pouco, a despeito de ser - ou por ser, talvez - bastante comentado, volta a se tornar irreconhecível. Atentai, porque esta xenofobia intrapsíquica é a genitora de todos os ódios.

17 de janeiro de 2016

Homenagem ao amor cortês

A mulher capaz de soterrar n'alma os seus tesouros, perdendo-os até para si mesma, é a única capaz de cultivar em seu eleito, para quem seus olhos são mapas inacabados, o desejo de dia a dia compulsá-los, revolvendo seus mistérios até jamais decifrá-los. Pois quanto mais busca nela o que sem ela nada será, mais desencontra o eleito, na eleitora, os tesouros que somente assim prezará. Bem-aventurada a mulher capaz de não possuir o homem que tem, e bem-aventurado o eleito que n'alma dela, e somente por ela, é alguém.

Exigência paradoxal

A vida nos exige, simultânea e fundamentalmente, duas coisas: que não tenhamos pressa e que sintamos sua urgência. Responder em cada dificuldade a tal paradoxo é tarefa inescapável, interminável e pessoalíssima. Corresponder o máximo possível à tensão que daí provém é - que fazer? - o único caminho para uma vida realmente fecunda.

Olhe

Tagarelar a respeito do que sentimos nada tem a ver com dizer a verdade sobre quem somos. Se deseja transmitir a alguém alguma coisa que considere vital, não use palavras. Elas jamais produzem efeitos duradouros. Encontre, antes, a atitude adequada, e prepare-se para bancá-la. Quando conseguir, verá que o essencial já foi dito.

Este seu amor

Se este seu amor não for capaz de desdobrar-se no tempo, desentranhando deste seu corpo, dia e noite, a alma que o tempera, e desta alma, noite e dia, o espírito que os concebe e compreende; se não for capaz de alinhar-se assim a um destino mais alto, então este seu amor, reduzido ao atavismo de apetites rasteiros, não produzirá nada além de diversão e tormento. Será ora uma coisa, ora outra, até que a oscilação desordenada entre tais sensações redunde em sarcasmo e desespero, espalhando por toda parte os rancores que você tentará, sem sucesso, dissimular. Porque no código dos corações humanos há uma lei que assevera: sofrerá de mil ódios o amor que não buscar sua razão no porquê de seus medos.