21 de janeiro de 2016

Algo

Quase nunca sabemos a fundo do que falamos ao falarmos de nós mesmos ou das relações que mantemos. Todavia, sempre que abrimos a boca, não importa por qual motivo ou com qual intenção, algo do que real e profundamente sabemos sobre nós mesmos e sobre essas relações; algo a respeito do que mais importa; algo sobre o que estamos a fazer neste mundo; algo ligado às nossas mais profundas simpatias e aversões; algo assim circula, movimenta-se, ruma numa direção perfazendo um sentido.

Este sentido chama-se, tradicionalmente, alma ou espírito. Não se chama eu. De modo que ao nos identificarmos sem mais com este pronome reto, deixamos cair, esquecido, dia após dia, algo deste algo que nos constitui. 

Isso significa que as nossas almas são feitas de algo que, ignorado pelo eu, nos escapa o tempo todo. Assim, algo deste algo precisa ser incessantemente aprendido ou recordado, a fim de que algo se manifeste no horizonte da consciência como destino

Ainda que não saibamos, é para este horizonte que as nossas questões mais prementes, como súplicas enderereçadas a Algo, dirigem-se. São estas súplicas, e não os pronomes do caso reto, que em seus consultórios os psicoterapeutas buscam escutar.

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