21 de janeiro de 2016

Eletromagnéticos, uni-vos!

A estimulação audiovisual diminui a voltagem das relações humanas, isto é, a diferença de potencial elétrico que instaura entre as pessoas correntes afetivas –, bem, num mundo como este, não tem jeito: para nos colocarmos frente aos outros, e compreendermos não o que dizem, mas o que de fato desejam, sentem e pensam, precisamos impor limites a tais virtualidades.

Receando cada vez mais manter essas correntes afetivas ligadas, a fim de evitar choques, os contemporâneos entregam-se sem reflexão às relações virtuais e à sua baixa voltagem  ou baixa realidade , assumindo aí posições que, por dispensar a prova do olho no olho, induzem as pessoas a falar e a se comprometer com mil e uma bobagens.

É um engano partir do pressuposto de que podemos, assim imediata ou virtualmente, fazer uma ideia adequada da vida alheia. Falamos como se soubéssemos muito bem o que vivemos nós mesmos, e este suposto saber nos habilitasse a julgar, de antemão ou em tempo real, as situações concretas enfrentadas por nossos semelhantes. Não. Talvez essa ilusão funcione no diálogo virtual com perfis virtuais, mas a verdade é que diante de um corpo humano vivo, que fala ou convive conosco, que nos interpela ou intima, que nos faz e desfaz favores, que sorri e nos irrita ao mesmo tempo, que eleva com sua presença a voltagem e a amperagem do relacionamento, a verdade é que diante dele quase nunca sabemos o lugar que nós mesmos vamos ocupando: se de pólo positivo frente ao negativo, quando doamos ao outro, ou se o contrário, quando recebemos dele; se de pólo positivo junto a outro positivo, quando tudo pode acontecer; ou se de negativo diante de outro negativo, onde nada acontece.

Diga-se o mesmo em relação a todas as polaridades humanas possíveis e seus inúmeros modos e combinações imagináveis: ativo-passivo, sujeito-objeto, amante-amado, experiente-inexperiente, amigo-rival, senhor-servo, algoz-vítima, agente-paciente, racional-emotivo, pessoal-impessoal, idoso-jovem, estranho-familiar, masculino-feminino, ou todas estas e ainda muitas outras polarizações em sucessões, graduações e simultaneidades tão ou mais complexas quanto as de uma molécula de ADN, e que nos escapam rumo à inconsciência, donde se conclui a dificuldade extraordinária de ainda ter, depois disso, de encontrar o lugar concreto do outro, para daí interpretar suas vivências com alguma destreza.

Se não nos guia um esforço biográfico de coerência e consciência, pautado por fins e valores claros, concretos, enraizados em estratos profundos e sadiamente inconscientes, não adianta: acabará sendo impossível saber o lugar que ocupamos todos neste mundo virtualizante, e o resultado será a desorientação geral. Isto porque a vida humana, queiramos ou não, é sempre um drama difícil de acompanhar: seus lugares se confundem, suas tramas se imbricam, suas conexões se escondem; emaranhando-se, embaralham o que já sabíamos com o que não sabemos, as antigas intensões com resistências novas, os valores virtualmente defendidos com os realmente assumidos, etc., gerando com isso mil opacidades e posições ambíguas, fragilidades que uma vida vivida em demasia no mundo virtual sente e padece sem dar-se muito conta disso, situação que a vai enfraquecendo através da perda gradual do que poderíamos chamar de seiva humana, isto é, contato demorado com os outros e seus valores.

Não se trata de abdicar das benesses do mundo virtual, mas de compreender que tal mundo não modificará a condição humana, que exige, do ser humano contemporâneo, agora mais do que nunca, um trabalho contínuo de auscultação e transparescência de si para si mesmo. Trabalho sem fim, sempre insuficiente, irrealizável sem a presença corporal dos outros, mas absolutamente necessário para avaliar situações complexas sem ingenuidades e com responsabilidade, sustentando diante da vida alguma dignidade, condição sem a qual não poderemos ser reconhecidos, ouvidos e vistos desde um centro ou posição clara. Se recusamos este trabalho, entregando-nos aos descentramentos da vida virtual, com o tempo nos desenraizamos ou nos virtualizamos, moléstia da qual a tagarelice é um dos sintomas mais evidentes.

Às vezes trágica, outras comicamente, expressa-se pela tagarelice uma incapacidade total de compreender e influenciar o que quer que seja. O tagarela é assim um exemplo deste sujeito desprovido de seiva, virtualizado, e por isso constantemente atropelado pelas circunstâncias. Quanto mais fala, menos autoridade tem sua voz. Porque não tem raízes suficientes, quanto mais age mais arrisca tombar. Não é à toa que o ramerrame cause tanto mal-estar em quem procura, ao contrário, enraizar-se ou situar-se antes de abrir a boca.

Pois para se colocar no lugar concreto do outro, a fim de realmente compreender o que deseja, sente e pensa, precisamos, antes e sempre, auscultar e escutar, procurando falar e responder desde o imo, único lugar onde é realmente possível um nexo compreensivo: é o famoso e já citado olho no olho. Dispensando esta âncora, estaremos todos à deriva e em rota de colisão uns com os outros.

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