18 de janeiro de 2016

Sequoias avoengas

Ninguém escapa à necessidade, cedo ou tarde emergente, de assumir-se para além de si mesmo. Porquanto o 'eu' nosso de cada dia é, como observava Freud, bem menos senhor de si do que a alma que o hospeda. 

Essa alma assemelha-se a uma sequoia avoenga, enraizada numa região psíquica insabida, mítica, ubíqua. Nosso 'eu', por outro lado, não passa, na comparação, de um arbusto miúdo e falho, dentro do qual a nossa consciência se agacha, aterrorizada, espiando de lá os abismos e as alturas transcendentes.


A alma humana é uma potência itinerante: vai de além em além transcendendo a si mesma a fim de ser em outros seres, reconhecendo-se neles e com eles cultivando-se. Ao desdobrar-se assim, a alma desenvolve, sobre as circunstâncias da vida, uma autoridade ou uma soberania que o 'eu', controlador nato, até tenta usurpar, mas que jamais consegue, por si, conquistar e manter.


De maneira que há uma diferença não somente tópica, mas sobretudo dinâmica entre a alma que somos e este 'eu' que imaginamos ser e conhecer. Esta diferença é um outro modo de considerar aquela realidade sui generis que Freud chamou de 'Inconsciente'. É por aí que nos escapa o que seguimos sem saber.


O inconsciente, espécie de alfândega clandestina, efeito do terror que sente o 'eu' ao lidar com amplitudes maiores que a dele, é o mercado negro da personalidade. Neste mercado vigora um comércio secreto e ancestral, onde circulam antepassados e demais presenças mágicas, espectros que exploram nossas forças e dominam nossas vidas. O problema é que tais espectros são o que nós mesmos somos: demônios que desfazem o que fazemos, roubam o que ganhamos e gozam quando sofremos.


Daí a importância central de nos mantermos abertos à multiplicidade da alma, pois ainda que tal abertura nos dispa e ameace, é ela a única atitude que pode ajudar a 'legalizar o mercado', habituando-nos ao seu cuidado e convívio. Cuidando de suas regras e transações, cuidamos de nós mesmos e do próximo: convertemos o demônio. 


Há uma só lei, aqui: dar ao arbusto o que é do arbusto e à sequoia a coragem de assumi-la. Nada aquém disto.

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