22 de janeiro de 2016

Nota: a origem histórico-filosófica dos discursos sobre a alma (psicologias)

De acordo com o ilustre filólogo alemão Wilamowitz-Moellendorff, "Heráclito foi o primeiro a pensar seriamente, ou mesmo a ter algo a dizer sobre a alma do homem". 

Segundo Karl Reinhardt, outro grande erudito alemão, em Heráclito de Éfeso podemos encontrar "pela primeira vez uma psicologia digna desse nome". 

Também Bruno Snell, alemão ainda e helenista renomado, tratando do aparecimento, em fins do período arcaico grego, da noção de "profundidade" ou de uma alma que engloba e excede o corpo por ser "profunda", diz que "foi Heráclito o primeiro a dar-nos essa concepção". 

Eric Voegelin, filósofo anglo-germânico, reconhece, neste mesmo sentido, que "Heráclito foi o primeiro pensador a explorar a alma em profundidade - identificando sua tensão, sua dinâmica, sua estrutura". 

Charles H. Kahn, respeitado especialista norte-americano em filosofia grega e antiga, afirma, por sua vez (no que é seguido pelos especialistas Thomas M. Robinson, canadense, e Giovanni Reale, italiano), que a concepção de alma desentranhada dos fragmentos do efésio é, de fato, original.

Retomando e desenvolvendo o trabalho dos estudiosos alemães supracitados, Kahn nos informa que Heráclito realmente conseguiu, de forma inédita, relacionar a noção homérica de sopro ou alento vital às noções vigentes e desmembradas de 'inteligência' (dos pitagóricos), de vida afetiva (dos poetas líricos) e de mundo físico (dos jônicos), aprofundando e unificando essas noções à luz de uma intuição psicológica definitiva: a da existência, em cada sujeito humano de carne e osso, de uma estrutura oculta que mimetiza e responde, "profunda" ou inconscientemente, à estrutura invisível e omniabarcante da razão (lógos) universal. À esta estrutura íntima, recôndita, de caráter pessoal intransferível, Heráclito chamou de alma (psykhé). Com isso, inaugurou a possibilidade de cada ser humano compreender sua interioridade como reflexo particularizado, ou expressão em menor escala, das claridades e mistérios da ordem (Kósmos) universal.

Essa intuição, de fato, transformou o entendimento da alma humana.

Antes de Heráclito, o termo grego 'psykhé', denotando apenas um princípio biológico ou emocional sem muita importância, não era encontrado nem nas descrições que se faziam da phísis (mundo físico), nem naquelas outras que buscavam investigar o mundo ético-político ou racional do anthropos (ser humano). Esses mundos, sentidos como inteiramente dependentes dos deuses e/ou das leis da Cidade-Estado, não eram vistos, com efeito, como possíveis expressões do subjetivo. A complexa experiência de perceber-se a si mesmo como um ser biograficamente relevante, consciente e responsável (experiência de ser uma subjetividade), era algo desconhecido no período arcaico da cultura grega. Mas porque Heráclito pôde pensar essa alma não como um princípio impessoal de vida, mas como sendo ela mesma esse centro unificador e irradiador de tensões pessoais "profundas" e comuns a todos, movimentos de alcance ético, como o Teatro, e de aprimoramento intelectual, como a Filosofia, puderam surgir e se articular. Com efeito, foi a partir daí que homens como Sófocles e Sócrates puderam fazer da alma humana, respectivamente, um palco para infindáveis dramas de consciência e uma escada para esferas mais altas de vida interior.

Não fosse a visão grega em geral e a de Heráclito em particular, obras aparentemente heterogêneas e tão fecundas quanto as de Edmund Husserl e Sigmund Freud, escritas 2.400 anos depois, não poderiam ter sido sequer imaginadas. 

Exemplos (há muitos): tanto a concepção de Husserl relativa à correlação entre Ego transcendental e Mundo-da-vida (correlação que constituiria a própria possibilidade de haver uma experiência humana sobre a face da terra) quanto aquela outra que autorizou Freud a psicanalisar a figura histórica de Moisés, propondo, a partir dela e de sua experiência clínica, uma interpretação do fenômeno religioso e do monoteísmo, enraízam-se em Heráclito, que foi, como se disse, o primeiro a ver e a falar de uma correspondência entre a estrutura da alma individual e as estruturas tanto da realidade material quanto da cultural (ou 'interssubjetiva'). 

Desde então, um mundo de pensadores - a começar por Platão - pôde ver ou constatar a mesma analogia, trabalhando para que essa relação tensa e de mútua ressonância entre mundo interno e mundo externo, ou entre ordem natural, ordem subjetiva e ordem cultural (e, numa outra chave, individual e social), fosse evidente para nós. 

Cit.: "Jamais seria possível descobrir os limites da alma, ainda que todos os caminhos fossem percorridos; tão profunda é a sua medida" (Heráclito de Éfeso, fragmento 45).

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