22 de janeiro de 2016

Origem mito'stórica do cuidado da alma (alumbramento)

O Uno educou o Múltiplo, o Ancião educou a Criança, Sócrates educou Platão. 
Isto aconteceu no Sempiterno, antes da Frivolidade do Tempo emprenhar, 
inaugurando invernos, tempos vis, índoles más. 
Foi antes do primeiro inverno 
que ensinou Sócrates o seu último mistério. 
Retirou-se depois para o Imo grego de Platão, 
para o insabido fundo de seu coração ático. 
Lá hibernou, arquetípico, paradigmático.

Mil vidas, idas e vindas após, com a memória lavada pelas mortes, 
sentiu Platão, o Redivivo, brotar daquele Imo, feito imemorial,
um sussurro, alto cochicho, que o invocava, manso mas cabal. 

Intrigadíssimo, mas a ignorar deste sopro a origem significante, 
Platão, o Principiante, sem saber agora o que outrora mais sabia,
disse: "Sócrates?..." , e escutou, do Imo: "Deixe a mente vazia".

Então, sob o influxo da ordem, e ao som do nome sacro,
uma a uma das mil vidas foi regressando à vestal memória,
e Platão viu-se Múltiplo, dos seus Eus o último: sua palmatória.
Castigado pelas reminiscências (ó tempo perdido),
viu o Aluno que o Mestre poderia libertá-lo
do restante esquecimento, e tarde,
mas sem delongamentos, arrependido,
fez do Uno a sua única deidade.

Assim, primeira vez em mil vidas,
reviu Platão as verdades aprendidas,
e nelas reconheceu o Bem de todos - não só o seu.
Decidiu, pois, ante as trevas mundanas, mostrar as lições que reaprendeu.
Mas tais luzes, percebeu, não poderia exibi-las nuas.
Vestidas foram, deste modo, com prudência, em ricas alegorias, belas figuras,
tornando amenas as mil labaredas que, descuidadas, arderiam até a secura.

Codificada na letra platônica, a luminescência socrática despertou, dos áticos,
a grã inteligência, resgatando-a da vil, vã discurseria, revelando,
na Luz que dá à luz, a Arte ímpar da dual coreografia: os Diálogos.
Que das palavras às Ideias e destas à Sabedoria, chamou-se, com amor, filosofia.
De modo que o sol, real alegoria, já luzia mais no Espírito
do que em Natura ou nas Cidades, e a Dialética, a nova arte, logrou reconciliar
o Uno e a Realidade.

Porém, viver sob as luzes da una verdade exigia, de todos, mais:
que se dedicassem, sem descontinuação, à escalada e à escavação
de si mesmos. Não sozinhos, mas nas pegadas do Ancião.
Somente assim, com suores e esforços, mudariam a paisagem interior,
descerrando-a para além da dor, e o imenso céu e a inteira terra,
agora dentro mais do que fora, fossem vistos como o Fundamento:
Memória que a tudo encerra.

Descobertas as Alturas, pr'onde tendem à vera, e as Profundezas, donde vêm ébrios,
ouviriam dentro de si o amável comando, o infindável eco: seja sábio!... 
Então, diante dos primeiros céus e abismos edificados, disse Platão, manso, ajuizado:
"é preciso que cada um, agora apto a reconhecer a Beleza, doravante pronuncie, incandescido de alegria e com a vida tesa, já salva, as palavras imortais, do mais íntimo Imo fundantes: Minha Alma!"

Nunca mais se poderia descuidar dela, desta mansa, nova e imperecível sina: a Imortalidade
da alma: que agora será sempre e desconhecerá mortes.
Platão ensina, pois, o que havia em si e jamais houve antes:
a sua e a socrática sorte.
Imbuída de sua missão, exortou Criança às suas crianças,
expondo a elas de sua ágrafa doutrina o coração pulsante:

Cuidem das suas almas e das almas uns dos outros, 
muito certos de que o despertar para a verdadeira vida 
só alcança os intelectos que se fazem herdeiros
do imortal Eros divino, da Penúria e da Abundância filho, 
e com ele convertem-se à busca do Bem e do Belo, 
mas também à da Una Verdade, comovidos pelo anelo 
de ofertar ao passado as suas lamúrias e ao futuro os seus lares.


Testemunhas do Destino!, combatam os desatinos da Frivolidade: 
o esquecimento, o mal, o saber de quem acha que sabe. 
Para bem-aventurarem-se em tal diligência, 
devotem-se vocês à contemplação das Essências, 
e ao Cuidado da Alma,
que dão ao Espírito Unidade 
e ao Corpo o que o salva.


Vão!, múltiplos de Sócrates, mostrar ao mundo, 
contra tudo e a todos no tempo, 
que o Uno fez de vocês almas fortes: 
seu mais claro e entranhado fundamento.

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