19 de janeiro de 2016

Sobre a contundência da tarefa psicológica de Nietzsche (por Stefan Zweig)

(...) a análise psicológica não é apenas uma questão de talento; é sobretudo uma questão de carácter, é algo que depende da coragem de "tudo pensar", pensar "tudo o que se sabe", é (...) união de uma profunda capacidade de conhecer com a energia viril e primordial da vontade de conhecer. Ao verdadeiro psicólogo, nesta acepção, não basta ser capaz de ver; aquilo que consegue ver tem que ser também objecto do seu querer ver. Ou seja, não pode, por via de qualquer sentimentalismo pessoal, por negligência, por receios ou vergonhas do seu foro privado, ignorar ou não aprofundar este ou aquele aspecto do seu objecto; não pode deixar-se adormecer ou entorpecer por escrúpulos ou sentimentos. No espírito daqueles que desempenham o papel de avaliadores e guardiães dos valores da alma humana, daqueles "cuja tarefa é manterem-se alerta", não pode haver conciliação, não pode haver temor, não pode haver compaixão, nenhuma das fraquezas (...) do homem burguês, do homem mediano. A eles, que são guerreiros e conquistadores do espírito, não lhes é permitido deixar benevolentemente escapar qualquer verdade que eventualmente surpreendam nas audaciosas patrulhas que levam a cabo. Nas coisas do conhecimento, a "cegueira não é erro, é cobardia", a benevolência é um crime, porque quem não quer ofender, quem não quer magoar, quem não quer pôr a nu por medo dos gritos de pudor que possa ouvir, quem teme a fealdade da nudez, esse não conseguirá nunca descobrir os segredos últimos. A verdade que não for levada ao extremo, a veracidade sem radicalidade não tem rigorosamente nenhum valor ético. Daí também a dureza com que Nietzsche trata todos os que por preguiça, ou por cobardia do pensamento, esquecem a obrigação sagrada de pensar com decisão e destemor (...) "Quanta verdade pode o homem suportar?" Foi esta a pergunta do audacioso pensador ao longo de toda uma vida (...)

[entre aspas, citações de Nietzsche]


Em "Combate com o demónio: Hölderlin, Kleist, Nietzsche", de Stefan Zweig (tradução portuguesa de José Miranda Justo). Editora Antígona, 2004.

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