20 de janeiro de 2016

Vida adulta

A finalidade da vida adulta não é adequar as pessoas ao realismo da vida em sociedade, mas fazer com que homens e mulheres, diante de outros homens e mulheres, percebam em quê, e como, para o bem e para o mal, já são alguém de verdade. A maturidade, portanto, não reflete uma adequação social, mas deve, antes, refletir o oposto: um discernimento quanto a tudo aquilo que nos distingue dos outros, até mesmo dos que nos são mais afins.

Sem este senso da própria singularidade, como reconhecer a singularidade do outro ou seu potencial de alcançá-la? Sem o senso da própria singularidade e o seu corolário, que é o reconhecimento da alheia, como não nos transformarmos em vaquinhas de presépio ante familiares e amigos, ou em números submetidos à tirania da quantidade? Sem essas qualidades, como sentir a alegria e o espanto de ainda assim sermos todos semelhantes?


Somos todos semelhantes e diferentes não somente genética ou biologicamente, mas essencialmente, ontologicamente, radicalmente 
 por que não dizer: dramaticamente. À percepção inicial e sensorial da semelhança ontológica deve seguir-se um processo lento de diferenciação ou individuação, em que a percepção vai se tornando cada vez mais capaz de apreender, no âmago da alma, a diferença essencial  singularidade  que a distingue de todas as demais. Em suma, os seres humanos são (mas também devem tornar-se) sínteses únicas de inumeráveis séries de semelhanças e diferenças constitutivas. É sobre tais séries que se fundam e se formam os afetos capitais do amor e do ódio.


Isso nos faz recordar que a vida humana não existe a não ser simpática ou antipaticamente, isto é, diante de pessoas concretas que nos afetam de maneira concreta em situações concretas. A maturidade, assim, diz respeito ao desenvolvimento da esfera afetiva, que somente se dá em âmbito pessoal ou particular, e não no social ou público, onde ela, a maturidade, pode ser apenas simulada, jamais desenvolvida ou vivida. A vida adulta, por isso, exige que as pessoas se assumam como são e se responsabilizem por isso: sempre mais.


É exatamente ela, a responsabilidade 
 ou a capacidade de responder por quem se é  –, o que depura, compromete, amadurece. 


Considerando, agora, que o que há de mais íntimo em alguém só existe em conexão com o que há de mais íntimo em outrem, e, também, que esta conexão é o que chamamos de intimidade, concluímos que em nossas almas esta só brota, fecundante, fértil, real, quando assumimos consciência da importância fundamental da virtude enunciada acima, a responsabilidade; que, por ligar-se intimamente aos outros, só deste modo emerge em nós, diferenciando-nos.


Eis o fundamento da verdadeira moral ou da vida interior, que, ao debruçar-se sobre o mundo, transforma-se em inteligência, que é, em seu sentido mais nobre e filosófico, a capacidade de apreender, nas pessoas, coisas e circunstâncias, aquilo que lhes é superlativamente interior: o íntimo, a essência.


Vida adulta, assim, é aquilo que nos reúne íntima, responsável e intelectualmente uns aos outros, conscientizando-nos do cuidado que devemos à alma que temos e à alma que, juntos, mantemos. Quanto maior o grau de responsabilidade, maior o enraizamento na realidade íntima. Quanto mais enraizados nela – na realidade concreta da intimidade –, mais inaptos estaremos para a vida de servidão voluntária idealizada nas engenharias sociais.


A vida feliz, por fim, decorre da conjunção, promovida pela verdadeira educação, desses quatro fatores: singularidade, responsabilidade, intimidade, inteligência. Excluídos deste círculo virtuoso, somente nos sentiremos 'felizes' se, imersos em prazeres sensoriais, pudermos esquecer que eles se extinguem com a idade, dores e doenças. Incorporados ao círculo, até o sofrimento nos fará, mesmo com dificuldades, sorrir. Há algo mais valioso? Quantos prazeres fáceis valem esta difícil bem-aventurança?


As repostas possíveis, aqui, vão do adulto imaturo e caprichoso, avesso a compromissos que o revelem, ao homem e à mulher que, pelas razões expostas acima, já não temem envelhecer, porque já sabem quem e o que são.

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