28 de fevereiro de 2016

Relacionamento duradouro

Todo relacionamento duradouro é, de A a Z, problemático, ambivalente, difícil. A felicidade, nele, só existe em tensão (insolúvel) com a infelicidade. Este conflito é que o torna compatível com a vida; não fosse com ela compatível, não seria duradouro.

25 de fevereiro de 2016

Contemplativos e observadores

O sujeito contemplativo difere do observador. Enquanto este repara em tudo que lhe surge ante os olhos e ouvidos, aquele se demora ante coisas aparentemente invisíveis, mas que são percebidas por ele, não obstante, como presentes e atuantes. 

O contemplativo não costuma notar as pequenas mudanças de visual ou lembrar-se detalhada e objetivamente de fatos concretos, por exemplo. No entanto, de maneira alguma ele vive de fantasias ou abstrações, longe disso. É que sua atenção recai sobre coisas que ainda não estão dadas, não estão visíveis, mas que se insinuam, com insistência até, nas entrelinhas, nas fisionomias, nos pequenos gestos.

O contemplativo não vê, mas entrevê ou, como diria Manoel de Barros, transvêEm geral, é visto como distante, alheio, sendo facilmente confundido com aqueles outros que, muito diferentes dele, são apenas desatentos. Contemplativos e observadores, deste modo, mais do que se complementarem, suplementam-se.

É curioso notar os casais que reúnem tais caráteres, ou ao menos aqueles que conseguem  não é fácil  equalizá-los. O que mais revelam, ao simplesmente serem o que são, é que a vida humana não é um córrego a mostrar com transparência o solo sobre o qual flui, mas sim um oceano em que as superfícies, quanto mais se estendem, mais apontam para baixo, instigando nos mais vividos aquele fascínio sui generis pelas profundezas.

É aí que se manifesta o claro-escuro da vida, sem o qual ela só pode atrair os distraídos.

Um cuidado

Os acontecimentos algumas vezes desinterpretam a gente.

Perder alguém para a morte, ou, mais comum, para a vida, é uma ocorrência assim, e nunca sabemos de antemão como reagiremos. Não sabemos. Insisto: não sabemos. 

O término de um relacionamento no qual estávamos enraizados ou o falecimento, repentino ou não, de algum familiar ou amigo muito próximos, são, pois, situações que nos ultrapassam violentamente; diante delas, jamais reagimos, tim-tim por tim-tim, como imaginávamos.

Mesmo os que sempre esperam o pior não sabem o que esperam. Não sabem. Cuidado consigo, no sentido de buscar em si, de verdade, quem se é, é preciso. Nada garante um remédio eficaz, mas sem isso o colapso gradual está garantido.

Acontecimentos como esses podem ser enfrentados, nas primeiras horas, nos primeiros meses e até nos primeiros anos com muita coragem e temperança, mas não há como prever ou mesmo perceber sua influência em prazos mais longos. O tempo traz um tanto de sabedoria e paz a alguns, mas noto, sempre mais, que à ingente maioria ele traz mesmo é amargura: crescente, insidiosa, imperceptível aos desatentos (são tantos...).

Esta amargura não é bem uma tristeza, não impede ou inibe sorrisos. Ela cresce como uma desarmonia de fundo, revelada nas sutilezas mais do que nas intenções, reais ou fingidas, e o mais sério e difícil: não é passível de ser convertida por força da vontade. Sequer é consciente, muitas vezes.

Portanto, cuidado ao lidar com pessoas que perderam porções de si mesmas... Em tais circunstâncias, silêncio e presença, é sempre bom lembrar, fazem mais do que a vontade ansiosa de fazer alguma coisa.

Isto posto, não descuidemos das almas que nos ligam desde dentro uns aos outros, lembrando ainda, enfim, que se há uma coisa que a vida sabe fazer de uma hora para outra é nos sacudir com força. Cuidado.

Alguém

É bem possível desacompanhar-se de umas cem mil coisas tidas hoje como necessárias, mas não, não é possível viver bem desacompanhado desta coisa única: alguém. Viver na companhia de outrem em vez de entre coisas, no entanto, é estar ao lado de uns cem mil 'não, não quero', 'não, não vou', 'não, não gosto', 'não, não dá', 'não, agora não'... 

Que fazer, então, quando ainda por cima os 'sim, é claro' ou os 'claro, agora mesmo', contrapesos fundamentais, não mais se fazem ouvir? 


Bem, não sei: cada laço faz suas curvas, volteios, voltas e revoltas. Dificílimo  e errado  generalizar. Não obstante, talvez se pudesse dizer que refugiar-se naquelas cem mil coisas referidas acima, ao nos distrair dos problemas sem resolvê-los, piora inacreditavelmente a situação. 


Nota-se aqui a falta de alguém: que tenha a virtude, o desejo ou a disposição  o amor  de ir buscar no fundo de cada 'não' o 'sim' que ele encobre. 


Que fazer, pois, e em tais casos, senão isto: usar dia a dia os olhos e ouvidos a fim de descobrir, em meio às mil distrações e rotinas todas, e antes de tudo em si mesmo, alguém.

Verdadeiros terapeutas

Os verdadeiros terapeutas não são aqueles que se dedicam ao ofício nobre de conduzir pessoas à assunção de uma consciência o mais ampla e responsável possível, mas são aqueles outros que, desde tempos melhores que os nossos, são chamados de Exemplos

Não me refiro às pseudo-personalidades construídas em programas de televisão e que nos são impingidas como 'modelos de superação'. Isso é bobagem (pode ser real para quem vive, mas desperta falsidades em quem vê). O verdadeiros exemplos não se mostram para as massas... Não podem ser editados ou embalados para consumo. Eles não se vendem; passam longe da propaganda. Gostam mesmo é do anonimato.

Ser um Exemplo é algo tão significativo que a personalidade que o encarna quase nunca tem, deste seu valor, muita consciência. Ela chega a entrever a própria virtude, claro, mas não a ponto de estar dela convencida. Dificilmente falará como porta-voz de seus próprios atributos, deixando o que há nela de exemplar como que em estado de quietude e silêncio, a fim de ser descoberto por olhares e ouvidos atentos, sedentos de orientação. Nada há de mais terapêutico na vida do que encontrar os exemplos certos, manter com eles algum tipo de convívio e deixar que o tempo faça o seu trabalho.

8 de fevereiro de 2016

Aprendizagem literária

A arte literária ensina, mas não garante o aprendizado. Há muitos por aí lendo bastante sem que a literatura os desperte para nada. Leem buscando alguma aprovação ou porque ouviram desde pequenos que "ler é bom", "é hábito saudável", "estimula a inteligência", etc., seguindo, crédulos, o dogma multimidiático. Será que essas pessoas têm alguma noção do que a leitura exige para despertar suas inteligências?

Quando existe realmente para alguém, eleita como instância de formação e reforma da personalidade, a boa literatura transforma-se num órganon que enlaça lembranças, adensa experiências, enraíza ideias e organiza afetos. Nutrindo deste modo a alma, desperta nela a vontade de ser melhormente vivida e superiormente narrada.

A apreensão do húmus da vida, da essência que nos torna humanos e condiciona nossas existências, é o que enfim a arte literária nos ensina – certa soberania sobre nós mesmos. Para isto ela exige maturidade ou sensibilidade ética, aptidão que deve encontrar em potência e atualizar. Crescerá aí uma consciência que precisará viver ou manter-se corajosamente em crise; em agudo questionamento. De modo que a boa literatura exige dos seus leitores a manutenção de uma elevada tensão existencial. 

Se não desejarmos confrontar tais exigências, não nos restará outra atitude senão a de abraçar satisfeitos a mediocridade disfarçada, assumindo de vez o hábito estéril de ler como quem se distrai.

Imaginar, é.

Só os gênios da arte, os grandes pensadores e os mestres da moral conservam intacta a potência imaginativa da infância. Nós outros, à medida que crescemos, vamos nos aparvalhando até nos tornarmos adultos mais ou menos desprovidos dela. A miséria social em que vivemos vem daí, desta ausência de Diálogo entre fantasia e realidade.

Confiança

Nada há de mais importante, de mais fundamental para as relações que mantemos com os outros e conosco mesmos do que o respeito e a fidelidade à palavra empenhada. Confiança e autoconfiança são coisas muito, muito sérias. São ainda mais sérias do que o amor, que sem elas nada pode realizar de bom. Sim, as palavras que empenhamos, queiramos ou não, tenhamos ciência ou não disso, têm gumes afiados e muito peso. São como o desejo e a espada de Dâmocles...

Infelicidades da felicidade

Digamos da felicidade o que Santo Agostinho dizia do tempo: "Se ninguém me pergunta o que é, eu sei, mas se quero explicá-lo, não sei". Lamentavelmente, sempre foram poucos os capazes de separar, como Agostinho, a sensação de que sabem do conhecimento efetivo que possuem. 

Por outro lado, são muitos os que hoje incorporam o 'modo de pensar' da propaganda, tratando temas complicadíssimos como coisas simples, quando não banais. Essa questão da felicidade, por exemplo, reflete bem a falta de perspectivas adequadas. 

Quando converso mais detidamente com pessoas que dizem "buscar a felicidade", trombeteando, entre outros chavões, que "o negócio é ser feliz", o que encontro nelas, em regra, é uma extensa zona mental semiconsciente, enormemente confusa, onde grandes faixas de sensações concorrentes buscam apressadas uma frase de efeito, que, imediatamente consumida, dá a quem a diz, lê e/ou divulga a sensação de que sabe muito bem o que se passa consigo e com o mundo. Nada mais falso. 

O nome dessa desrazão é sensacionalismo: divulgação de impressões rasas, ávidas por reconhecimento imediato – é o que essa gente entende por "comunicação".

Impressões como essas são hoje destiladas em número cada vez maior, multiplicando-se na boca (e nas 'páginas') de pessoas que não desejam conhecer a fundo coisa alguma, querendo apenas embalar para consumo tudo que veem, ouvem e leem por aí. 

No tocante ao tema em questão, o livro Felicidade Humana, do filósofo espanhol Julian Marías, é leitura recomendável a todos os que sejam exceção à regra. É cada vez mais importante desenvolver sobre o tema diálogos radicados não no conjunto virtual e virtualizante das opiniões rasas, mas nesta vida mesma que, com maior ou menor confusão, esforçamo-nos todos por compreender e tornar feliz, ainda que nos contrariem as circunstâncias.