8 de fevereiro de 2016

Aprendizagem literária

A arte literária ensina, mas não garante o aprendizado. Há muitos por aí lendo bastante sem que a literatura os desperte para nada. Leem buscando alguma aprovação ou porque ouviram desde pequenos que "ler é bom", "é hábito saudável", "estimula a inteligência", etc., seguindo, crédulos, o dogma multimidiático. Será que essas pessoas têm alguma noção do que a leitura exige para despertar suas inteligências?

Quando existe realmente para alguém, eleita como instância de formação e reforma da personalidade, a boa literatura transforma-se num órganon que enlaça lembranças, adensa experiências, enraíza ideias e organiza afetos. Nutrindo deste modo a alma, desperta nela a vontade de ser melhormente vivida e superiormente narrada.

A apreensão do húmus da vida, da essência que nos torna humanos e condiciona nossas existências, é o que enfim a arte literária nos ensina – certa soberania sobre nós mesmos. Para isto ela exige maturidade ou sensibilidade ética, aptidão que deve encontrar em potência e atualizar. Crescerá aí uma consciência que precisará viver ou manter-se corajosamente em crise; em agudo questionamento. De modo que a boa literatura exige dos seus leitores a manutenção de uma elevada tensão existencial. 

Se não desejarmos confrontar tais exigências, não nos restará outra atitude senão a de abraçar satisfeitos a mediocridade disfarçada, assumindo de vez o hábito estéril de ler como quem se distrai.

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