25 de fevereiro de 2016

Contemplativos e observadores

O sujeito contemplativo difere do observador. Enquanto este repara em tudo que lhe surge ante os olhos e ouvidos, aquele se demora ante coisas aparentemente invisíveis, mas que são percebidas por ele, não obstante, como presentes e atuantes. 

O contemplativo não costuma notar as pequenas mudanças de visual ou lembrar-se detalhada e objetivamente de fatos concretos, por exemplo. No entanto, de maneira alguma ele vive de fantasias ou abstrações, longe disso. É que sua atenção recai sobre coisas que ainda não estão dadas, não estão visíveis, mas que se insinuam, com insistência até, nas entrelinhas, nas fisionomias, nos pequenos gestos.

O contemplativo não vê, mas entrevê ou, como diria Manoel de Barros, transvêEm geral, é visto como distante, alheio, sendo facilmente confundido com aqueles outros que, muito diferentes dele, são apenas desatentos. Contemplativos e observadores, deste modo, mais do que se complementarem, suplementam-se.

É curioso notar os casais que reúnem tais caráteres, ou ao menos aqueles que conseguem  não é fácil  equalizá-los. O que mais revelam, ao simplesmente serem o que são, é que a vida humana não é um córrego a mostrar com transparência o solo sobre o qual flui, mas sim um oceano em que as superfícies, quanto mais se estendem, mais apontam para baixo, instigando nos mais vividos aquele fascínio sui generis pelas profundezas.

É aí que se manifesta o claro-escuro da vida, sem o qual ela só pode atrair os distraídos.

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