8 de fevereiro de 2016

Infelicidades da felicidade

Digamos da felicidade o que Santo Agostinho dizia do tempo: "Se ninguém me pergunta o que é, eu sei, mas se quero explicá-lo, não sei". Lamentavelmente, sempre foram poucos os capazes de separar, como Agostinho, a sensação de que sabem do conhecimento efetivo que possuem. 

Por outro lado, são muitos os que hoje incorporam o 'modo de pensar' da propaganda, tratando temas complicadíssimos como coisas simples, quando não banais. Essa questão da felicidade, por exemplo, reflete bem a falta de perspectivas adequadas. 

Quando converso mais detidamente com pessoas que dizem "buscar a felicidade", trombeteando, entre outros chavões, que "o negócio é ser feliz", o que encontro nelas, em regra, é uma extensa zona mental semiconsciente, enormemente confusa, onde grandes faixas de sensações concorrentes buscam apressadas uma frase de efeito, que, imediatamente consumida, dá a quem a diz, lê e/ou divulga a sensação de que sabe muito bem o que se passa consigo e com o mundo. Nada mais falso. 

O nome dessa desrazão é sensacionalismo: divulgação de impressões rasas, ávidas por reconhecimento imediato – é o que essa gente entende por "comunicação".

Impressões como essas são hoje destiladas em número cada vez maior, multiplicando-se na boca (e nas 'páginas') de pessoas que não desejam conhecer a fundo coisa alguma, querendo apenas embalar para consumo tudo que veem, ouvem e leem por aí. 

No tocante ao tema em questão, o livro Felicidade Humana, do filósofo espanhol Julian Marías, é leitura recomendável a todos os que sejam exceção à regra. É cada vez mais importante desenvolver sobre o tema diálogos radicados não no conjunto virtual e virtualizante das opiniões rasas, mas nesta vida mesma que, com maior ou menor confusão, esforçamo-nos todos por compreender e tornar feliz, ainda que nos contrariem as circunstâncias.

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